Quando fala da estrutura narrativa, Tomás Albaladejo Mayordomo (1986) considera a existência de três tipos fundamentais de modelo de mundo: o verdadeiro (tipo I), o verosímil (tipo II) e o inverosímil (tipo III). O modelo de mundo que corresponde ao tipo I é aquele cujas regras são as mesmas da realidade efetiva e dela retoma seres, estados, processos, ações e ideias; o modelo de mundo que cabe no segundo tipo é o da ficção verosímil, cujas regras, não sendo as mesmas da realidade factual, nela se inspiram, pelo que os seres, os estados, os processos, as ações e as ideias poderiam perfeitamente integrar a realidade objetiva ou empírica; o modelo de mundo de tipo III é o da ficção inverosímil, cujas regras não são as que presidem à realidade objetiva nem a elas se assemelham, situação que origina uma estrutura de conjunto referencial formada por seres, estados, processos, ações e ideias que não possuem a qualidade da verosimilhança.
Há filmes que, perante a possibilidade de o verosímil ser tomado por real, avisam o público de que «Qualquer semelhança com factos reais é mera coincidência», o que também confirma a fragilidade, cada vez maior, das fronteiras entre realidade e ficção. Na verdade, é cada vez mais difícil distinguir os dois mundos, não só porque a ficção é cada vez mais realista, mas sobretudo porque a realidade é cada vez mais “construída” e as perceções, pouco dadas à confirmação da informação e das fontes, tendem a pesar mais do que os factos.
A ficção de 1984, livro que George Orwell publicou em 1949, antecipou a realidade que vivemos hoje: hábitos de consumo rastreados e dados de navegação recolhidos; opiniões e crenças moldadas pela desinformação, pelo sensacionalismo e pelos algoritmos; empobrecimento linguístico, discursivo, cultural e emocional; sobrevalorização da imagem, distração permanente, sedentarismo crónico e dependência digital.
Antes seguíssemos o exemplo de João Sem Medo, que prefere «o caminho árduo» a abdicar da sua consciência. Diz o corajoso protagonista de Aventuras de João Sem Medo, obra de José Gomes Ferreira, que tudo prefere «a viver sem cabeça», reconhecendo a falta que ela lhe faz e recusando, por isso, a proposta que lhe é feita: «consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas.» Quiséssemos nós fazer da sua escolha a nossa realidade e, como ele, seguirmos orgulhosos «de sentir a cabeça nos ombros.», antes que o pensamento crítico se torne ficção.














