O escritor deixou-nos em março de 2024. Em abril de 2026, a viúva e um amigo, Ricardo Marques, encetaram o difícil e sempre incompleto trabalho de publicar postumamente um livro de poemas que Júdice estava a preparar. Não se sabe se era exatamente este que ele queria dar à estampa e não temos como sabê-lo. Trata-se de um conjunto de poemas, alguns escritos nos últimos anos de vida e outros mesmo nos últimos meses da doença, incluindo o derradeiro, de 26 de fevereiro do ano fatídico, sugestivamente intitulado “Releitura”.
Este extraordinário texto organiza-se em três momentos numerados pela mão do poeta. Atente-se na carga simbólica do número, uma unidade, o fechamento de um ciclo como a nossa vida: nascemos, crescemos e morremos. Vamos com o tempo. Trata-se de uma releitura da própria vida, em jeito de balanço final, irremediável, sem regresso. Trata-se, simultaneamente, da releitura da história da humanidade, um livro que se abre «século após século». Um livro onde amor e a morte coexistem e se fixam no tempo através dasmanifestações artísticas, vindas do olhar de quem as viu, as registou e as fez chegar até ao presente.
No segundo momento, o “eu” do poema, fecha de novo o «livro», a memória do tempo que já foi e apenas ficou no papel, onde também ele se inscreve. Avisa que por mais que se investigue, ninguém será capaz de o descobrir, porque cada um de nós nunca sabe de si, porque é sempre um outro, num tempo que se extingue, deixando para trás tudo, países, palavras e profissões que já não existem na língua de agora, enfim, «tudo aquilo que tem por trás a tal música, o tal/veneno, o tal sabor de extinção de que já nem queremos/ouvir os ecos».
O terceiro, evoca as fotos de infância que ficaram à espera de serem organizadas por datas e nomes, tarefa que só ele poderia realizar, tarefa adiada. Agora, já é tarde, mas isso não é assim tão importante, pois «nada do que aqui está ou/estiver para vir precisa de mim». Nada importa, agora «o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio cuja corda se partiu». É a hora de voltar ao zero «onde tudo recomeça». Há nas suas palavras finais um estoicismo triste, uma aceitação melancólica das coisas como elas são, sem indagações. Este é o testemunho do seu último fôlego literário, a sua despedida, confortando-nos: o mundo continuará a girar sem nós porque assim há de ser.
O livro fecha com uma fotografia a preto e branco do menino que foi, de calção e boina, conduzindo um pequeno barco a remo. Um regresso à infância onde tudo ainda era possível.
O título da obra, Primeiro Poema, foi indicado a Ricardo Marques, quando este lhe perguntou qual era o nome que estava a pensar dar ao livro, ainda em embrião, que tinha sobre a mesa do ofício poético. Trata-se, igualmente, do nome de um dos poemas que abrem esta coletânea. Nele, o poeta retoma a necessidade de falar do fenómeno da criação poética, tema que tratou com frequência na sua obra: «Nunca quis saber a que horas começava um poema/ e muito menos quanto tempo durava a escrevê-lo. O poema/ pode ser uma luta contra o tempo, quer para o escrever/quer para o acabar. Porém, cada poema tem o seu tempo/ próprio e, pela minha experiência, por vezes/os melhores são os que têm o tempo impróprio.»
Servindo-nos das suas palavras, concluímos que alguns destes poemas foram, sem dúvida, escritos no tempo muito «impróprio», o da partida do homem que os escreveu. Através deles, o poeta, esse permanecerá entre nós, que o lemos com saudades. Saudades até do tanto que ainda poderia ter escrito para nosso gáudio.
















