ARTIGO DE OPINIÃO: Ensinar Não É Substituir o Sistema: Professora no Seu Limite…

23/03/2026 18:15

Os professores encontram-se, de forma generalizada, num estado profundo de cansaço físico,
emocional e profissional. A exaustão acumulada resulta de um sistema educativo que, progressivamente, tem vindo a desvirtuar a essência da função docente, impondo aos professores responsabilidades que extravasam claramente o âmbito da sua formação e das suas competências profissionais.

Urge proceder a uma revisão séria, responsável e urgente do Estatuto da Carreira Docente. Os professores não podem continuar a ser chamados a desempenhar, em simultâneo, o papel de educadores, pais, mães, avós, psicólogos, assistentes sociais, secretárias e técnicos administrativos. A nossa missão central é ensinar, planear, avaliar e promover aprendizagens significativas — não substituir falhas estruturais de um sistema que insiste em transferir responsabilidades para quem já se encontra no limite.

A realidade das salas de aula é cada vez mais complexa. Não é humanamente sustentável exigir a um único professor a gestão pedagógica e emocional de turmas com 23 alunos, incluindo crianças com Perturbações do Espectro do Autismo e outras necessidades educativas específicas, sem os recursos humanos, técnicos e especializados adequados. A inclusão não se decreta; constrói-se com meios, com equipas multidisciplinares e com respeito pelo trabalho docente.

Escolhi esta profissão por vocação. Frequentei um curso superior para ser professora, não para assumir tarefas administrativas que não me competem, nem para desempenhar funções para as quais não fui formada. Se o sistema entende que estas tarefas fazem parte do nosso dever profissional, então devem ser claramente definidas, reconhecidas e devidamente remuneradas.

É igualmente inaceitável que se normalize a observação de aulas entre pares como instrumento de controlo e desconfiança. Não fui formada para fiscalizar o trabalho de outros docentes, nem me considero legitimada para interferir na prática pedagógica de colegas. Esta lógica fere a ética profissional, fragiliza as relações nas escolas e desrespeita a autonomia docente.

Se este caminho persistir, os senhores diretores e o próprio sistema educativo enfrentarão um problema gravíssimo: a ausência de professores. Ninguém aguenta indefinidamente um modelo assente na sobrecarga, na desvalorização e na falta de escuta. Os professores estão cansados de dizer sempre “ámen” a decisões que não os respeitam e que ignoram a realidade do terreno.

Este desabafo não nasce da falta de profissionalismo, mas do excesso dele. Nasce da indignação de quem dá tudo à escola e aos alunos e, ainda assim, sente que a sua voz é sistematicamente silenciada. É tempo de ouvir os professores. É tempo de agir.

Exausta
Sandra Porto Ferreira

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