ARTIGO DE OPINIÃO: Balada do Corsário dos Sete Mares

25/03/2026 18:15

Manuel Alegre continua a publicar novos textos e ainda bem! O seu último livro é uma ode à vida e à poesia.

O título lembra-nos as baladas coimbrãs, a sua passagem pela academia e as trovas que fez a um vento que, durante muitos anos, ocultou as notícias de um país emigrado, exilado à beira do Sena, longe da pátria distante.  Os sete mares evocam-nos a nossa condição de marinheiros que descobrimos um mundo por achar e a nossa condição humana de seres sempre à deriva nos oceanos da vida.

Lembra-nos Ulisses na sua demorada viagem até Ítaca, a quem Alegre dedica poemas fulgurantes, retomado também aqui: Sou esse barco perdido/ que busca só por buscar/ traz o último sentido/ que há no verbo navegar. Lembra-nos versos de O´Neill na boca de Amália: Dos sete mares andarilho / Fosse quem sabe o primeiro / A contar-me o que inventasse. Recorda-nos a intensidade e a vocação musical da poesia alegriana, tantas vezes musicada e cantada.

O livro abre com “Quatro Poemas” dedicados a Nuno Júdice, um dos nossos grandes poetas contemporâneos. Neles, Alegre fala do labor poético, da arte de criar poesia. O começo de tudo, a página em branco: Há muitas maneiras de entrar num poema/Agora vou ante pé…/O poema está cheio de armadilhas. /Pode cair-se numa estrofe/ De onde é difícil regressar.

No segundo momento, o poeta traz-nos imagens do nosso mundo num “Tempo do Avesso”: Este é um tempo sem tempo e de um só tema/ dai-me um canto sem mísseis no poema/ para que o tempo torne a ter sentido. Um tempo carregado de guerras, de negação dos direitos humanos em muitos lados, cada vez mais. Este é um tempo de homens contra homens, de irmãos contra irmãos, onde há lágrimas de dor e de revolta/ enquanto sirenes se ouviam em Kiev. Ou ainda: Uma criança com um tacho na mão/Queria um pouco de pão para matar a fome/Ficou um corpo tombado no chão/Um tacho vazio uma criança sem nome.

Traz-nos depois “As Aves que Vão no Vento”, um verso que soa a outro de um dos seus mais conhecidos poemas E cravam-se no tempo como farpas/as mãos que vês nas coisas transformadas. /Folhas que vão no vento: verdes harpas.

Segue com a “Forma suprema” em que retoma a criação dos seus textos, muitas vezes as palavras chegam de não se sabe de onde, chegam e partem da mesma maneira: É talvez a forma suprema/ versos que se escrevem/ chegam passam esquecem/ e são o poema. Depois “A verdadeira Morte de Billy the Kid” o amor ao cinema, à literatura, num deambular pelo passado, numa corrida na vida que fica irremediavelmente para trás e dela permanecem as memórias eternizadas nos versos. Se não escreveres a vida continua/ árvores e peixes nem darão por isso/ talvez o cão a quem tu lias poemas/ talvez o cão: mas esse já partiu. O cão de um outro livro “Cão como nós”.  

Trata-se, ainda, de um regresso à guerra colonial e a outras batalhas cívicas: Quem não esteve comigo nas batalhas/ não compreende parte do que escrevo. Isto é bem verdade, porque a sua biografia rima, de forma indelével, com a sua obra literária. Agora, aqui, também a consciência cada vez mais nítida do fim, do seu fim: por estes velhos caminhos/ vão os velhos devagar/vão os velhos e vamos/ nós/ por estes velhos caminhos. Um outono quase inverno: As folhas estão a ficar amarelas/estão a ficar amarelas e não posso fazer nada.

No antepenúltimo capítulo, encontramos um hino ao amor, sugestivamente intitulado “A Tua Beleza”, dedicado a Mafalda, a mulher: a tua beleza é a coroa da minha vida/ ela é o meu reino inconquistado.  Que seria de mim sem esta força/este retrato de ordem e de beleza?

Será este um livro de despedida? Da vida, do amor, de Águeda?  O penúltimo pressagia um desejo desde o título de abertura “Irei a Águeda”, à casa mãe, ao berço que foi o princípio e será o fim. Irei a Águeda sentar-me à beira-rio/ lembrar o tempo em que me banhava nas suas águas/recordarei o chiar da nora e o canto da cotovia/ou os besouros que zumbiam ao fim da tarde. //Ali procurarei o meu abrigo/construirei o silêncio carregado de vozes/Depois de tantas voltas/Não preciso mais do que um pouco de sol.

A última parte estabelece uma relação com a primeira, agora “Quatro baladas”, antes “Quatro poemas”. É nítida a articulação indestrinçável entre a palavra poética e a música. A nossa literatura nasceu como poema para ser cantado. A primeira balada tem um tom popular, lembrando o nosso cancioneiro geral tão rico, chama-se “Balada ao Vento nos Canaviais”: O vento nos canaviais/ mais do que vento um gemido/ o que foi não volta mais/ só o que foi tem sentido. A segunda retoma o título do livro: Vêm de longe os corsários/sem pressa para atacar/ navegadores solitários/ na grande casa do mar.  A terceira a “Balada do Adeus” é a letra para um fado de Ricardo Ribeiro: Minha casa é nos caminhos/onde busco mais além/ viajantes vão sozinhos/ fica um adeus e ninguém. //Fica um adeus e ninguém. A última, a Coimbra, a cidade mítica, a pedido de João Braga: Coimbra tem sete letras/tantas como as de saudade/ pedras brancas capas negras/ que são a cor da cidade.

Neste livro, Manuel Alegre revisita a sua longa obra ao revisitar a sua já longa vida. Há, indiscutivelmente, uma unidade nos seus versos de ontem e de hoje. De novo, só o tom melancólico de uma partida iminente.

Ana Albuquerque


Subscreva a nossa Newsletter Informativa

Receba as novidades todas as semanas no seu email.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *