ARTIGO DE OPINIÃO: Lobo Antunes no meu outono

21/10/2026 18:21

Se a nostalgia tivesse cor, teria certamente a do outono com as folhas amarelecidas caídas pelos caminhos da infância. Se o outono tivesse sabor, seria certamente o da marmelada a secar nas janelas e o das castanhas assadas sob a caruma seca no átrio da escola. Se o outono tivesse aroma seria o da maçã do bravo de Esmolfe e do cheiro a canela misturado com pedaços de abóbora fumegante sobre o fogão de lenha nas tardes frias. 

Tudo isto para dizer que gosto desta estação. Gosto de me sentar perto da janela, por onde ainda coam alguns raios de sol, e ler. Desta vez, poesia. Os trabalhos pendentes e a rotina diária tiram-me o tempo para me deixar absorver pelas leituras mais longas. A poesia permite a contemplação, as pausas no desassossego.

Peguei num livrinho pequeno, de capa vermelha, que tinha comprado há algum tempo. Trata-se de uma coletânea de poemas de António Lobo Antunes, publicada em junho deste ano. Uma edição póstuma sujeita a todas as críticas e riscos de uma edição que não teve o cunho do seu autor.

Folheei as páginas. Fui-me interrogando. Como é que um autor de muitos e grandes romances, de complexa trama narrativa e de enorme densidade psicológica e até linguística, se deliciou a compor letras para fados, de Lisboa (Fadinho da prostituta da rua de Santo António da glória) e de Coimbra (O mar acaba ao teu lado)? Como se deliciou a compor quadras e versos rimados ao sabor da canção popular?

Por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista, ou leitura, na realidade a vida é feita destas aparentes contradições. 

Ora vejamos! Detenho-me no poema da página 87, sugestivamente intitulado Fado da pré-reforma. Imaginem lá porquê? Faço, por estes dias, 42 anos de serviço docente. A idade da reforma tem-se alterado com o tempo. E o cansaço vai-se acumulando.

Dizem assim algumas quadras, que escolho para amostra:

Quando saio pró emprego

Dizes-me adeus do postigo

Gosto de ti seja cego

Fique já aqui tolhido!

Almoço um pastel folhado

Volto ao escritório a correr

Sento-me à mesa apressado

E logo o patrão, zangado,

Antunes, não pode ser!

Esfrego os pés no capacho

Vens de robe dar-me um beijo

Que sejas nova não acho

Mas calo-me ponho um pacho

E enquanto aqueces o tacho

Vai-se-me logo o desejo.

E tu em Marvila: amor

Não gostas do meu cozido?

Mas seja lá como for

Gosto de ti sim senhor

Fique já aqui tolhido!

É um poema que afinal poderia ser o mote para um romance. Não vos parece?

Os bons escritores são os mais simples. Acreditem! Os que sabem a vida nas suas múltiplas matizes. Os que escrevem como quem respira. Os que usam a língua na sua ductilidade e se servem dela para expressar a natureza humana. Disto, afinal, tratam todos os grandes romances e todos os pequenos poemas do António. 


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