Clã atuam esta noite em Tondela com casa cheia

28/01/2023 13:23

Os Clã estão na estrada a promover o nono álbum de originais, ‘Véspera’, e vão passar este sábado à noite pelo Auditório Carla Torres. A banda regressa a Tondela a convite da Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) e a receção vai ter casa cheia. O Viseu Now esteve à conversa com Manuela Avezedo, fundadora e vocalista da banda nortenha.

Como é estar de volta a Tondela, com sala esgotada de antemão?

Estamos muito contentes com esta prenda antecipada, pois sabemos que temos casa cheia. Quando recebemos o convite, ficamos logo muito felizes, porque temos boas recordações dessa sala. Aliás, na verdade, não especificamente dessa sala, porque sempre que tocámos na ACERT foi ao ar livre, por isso, vai ser uma estreia, no espaço interior, no auditório. Mas temos as melhores memórias de todas as passagens que fomos fazendo, ao longo dos anos, pela ACERT. Somos muito bem recebidos e, realmente, sentimo-nos em casa. A hospitalidade da equipa é extraordinária, contudo o público também é maravilhoso: muito conhecedor, generoso e culto. É, pois, com a expetativa de um bom reencontro que atuaremos em Tondela.

O que é que os Clã vão trazer para o palco este sábado?

Este espetáculo é centrado no ‘Véspera’. Todas as dez canções do álbum passarão pelo palco, mas, obviamente, haverá outras do nosso repertório. Algumas porque são quase inevitáveis, outras porque estão próximas deste novo trabalho.

‘Véspera’ simboliza a expetativa de algo próximo e o que é que o público pode esperar?

O ‘Véspera’ foi um álbum que começou a ser desenhado em 2018, gravado em 2019 e estava a sair da fábrica, quentinho, quando a Covid 19 apareceu e foi decretado o primeiro confinamento em Portugal. As pessoas, às vezes, ouvem o disco e parece que foi criado depois da pandemia, porque há muitas canções que retratam, duma maneira quase literal, o que a gente viveu naquele tempo. Mas, na verdade, não. Foi pensado e feito antes disso. Tal aconteceu, não porque adivinhássemos ou tivéssemos algum condão de feiticeiro para prever o futuro, mas porque a pandemia veio concretizar, de uma forma terrível, uma sensação que eu acho que já havia há alguns anos, décadas até, de que o mundo não vai muito bem. Não é que o mundo tenha andado alguma vez bem, nunca estivemos num paraíso, mas ultimamente foi-se sentindo a degradação de várias coisas. Desde o acentuar das alterações climáticas e ninguém ligar para isso. A existência de conflitos em locais que já estavam a caminho da paz. A tragédia de todos os refugiados, que andam perdidos pelo planeta, sem conseguirem um local pacífico onde possam ter uma vida digna. O ressurgimento de ideias mais radicais, que pareciam ter sido enterradas nas guerras do passado. Tudo isto alimentou aquilo que foi a construção do ‘Véspera’, que é um disco que tem em cada canção uma sensação de que algo avassalador vai acontecer. Não sabemos se é bom ou mau, mas deixa-nos na ponta dos pés. E as canções são uma espécie de resposta fraca e de peito aberto a essa necessidade de reagirmos a algo iminente.

Os Clã são sobreviventes, contra ventos e marés, há mais de 30 anos, de tempestades que assolam a Cultura. O termo ‘moribunda’ aplica-se?

 Eu acho que não. Felizmente, não. Nestes 30 anos de carreira dos Clã, já muitas vezes nos perguntaram isso: «Como está o estado da Cultura? A falta de financiamento põe em risco a Cultura?» Portanto, este problema de subfinanciamento e subinvestimento é antigo. Mas não só na Cultura, também na Educação, para falarmos de um assunto que está agora na ordem do dia, com todas as manifestações dos professores na rua.

Para mim, e acho que para muita gente também, é evidente que o que tem que ver com a educação, com o passar de conhecimentos às nossas crianças, aos jovens, mas igualmente aos adultos, é um investimento num futuro melhor, porque é investir em pessoas mais informadas, mais solidárias e atentas ao mundo, mais capazes depois para ajudarem na construção de objetivos comuns. E isso é o que cada vez mais faz falta no mundo em geral e no nosso país também. Apesar de sermos um cantinho tranquilo e sossegado do planeta, pois há locais que lutam com problemas muitíssimo mais violentos e maiores do que aqueles atrapalham a nossa vida em Portugal, é cada vez mais urgente termos cidadãos mais críticos e cultos. Nesse sentido, a Cultura é um instrumento absolutamente fundamental para acordar as mentalidades e fazer o mundo andar para a frente.

E não há investimento que seja suficiente para isso. Infelizmente, no nosso contexto, é sempre demasiado limitado e ridículo, quase, para aquilo que o país precisa e merece. De facto, estamos a subinvestir há muitas décadas. O PRR, por exemplo, podia ser uma oportunidade para se investir nesses campos que são importantes, mas temo que vá ser uma oportunidade perdida, mais uma vez. Continuo, porém, apesar deste meu início cínico e desapontado, a ter esperança de que o dia que vem a seguir é melhor e que as pessoas e os dirigentes acordem para aquilo que é evidente, que é a importância de um investimento maior e a longo prazo na Educação e na Cultura.

‘Véspera’ leva-nos a pensar no que está por vir… O que está nas cartas para os Clã?

Neste momento o ‘Véspera’ está na estrada e não nos podemos queixar porque tivemos alguma sorte. Sentimos que era urgente lançar o disco e fizemo-lo, mesmo não sabendo se poderíamos subir a palco e quando. Mas, felizmente, a cada abertura que foi acontecendo, conseguimos fazer concertos e fomos percorrendo o país. E é isso que vamos continuar a fazer, durante este ano, uma vez que ainda nos falta visitar algumas capelinhas. Estamos naquela fase maravilhosa de atirar bolas para o pinhal, barro à parede ou algo do género, que é, basicamente, pensar no que nos anima, desafia e como concretizar isso no próximo projeto criativo da banda.

Qual a próxima apresentação da banda?

Curiosamente, também vai ser uma estreia. Estaremos, a 17 de março, no Festival Lux Interior, no Convento de São Francisco, em Coimbra.


Fotos: João Octávio Peixoto

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