
Desde miúdo (começando a olhar com curiosidade maior para as lendas e mitos em redor dos heróis nacionais), a história e as lendas em volta de Viriato me seduziam e abrangiam o meu universo de preciosidades e vivências de criança, exemplo de heroicidade e independência. Viriato era o Herói acima dos reis e dos príncipes, navegadores e aventureiros da nossa História. A escola primária viria a acentuar o crescente fascínio pelo personagem, com um livro de História da 3.ª classe todo em Quadradinhos, uma Banda Desenhada (a primeira da minha coleção) onde Viriato surgia belo, majestoso, mas depois traído, mártir de um projeto imperialista.
Desenvolvi em crescendo o gosto paralelo pela coleção de coisas sobre Viriato (primeiro os cromos, depois revistas, mais tarde ilustrações, a banda desenhada, os livros). E quando comecei a desenhar/pintar, logo Viriato se tornou tema (em madeira, em aguarela, em caricatura, …). Em 2020 criei o fanzine VIRIATVS, honrando o herói, perpetuando nas capas e no interior muitas histórias retratando o herói (vai já no número 9).
Recentemente, por sugestão de um romance histórico, chegou o momento de honrar Viriato com um Poema épico, uma Ode a Viriato, editado com o patrocínio e propriedade do Regimento de Infantaria 14 (Viseu). A obra não é original (inspirada no romance histórico da autoria da escritora Margarida Rebelo Pinto, intitulado “A lenda do belo soldado”). Neste romance desenvolve-se a lenda de uma pastora de nome Calista, e se reinterpreta a imagem de Viriato, nos primórdios da nação, mas principalmente recria na imaginação literária e confiando na sua intuição uma estória perdida ao longo dos séculos. Quem teria sido a personagem que se diz ter seguido Viriato ao longo da sua jornada de guerra e conquista? Seria realmente apenas um simples soldado ou alguém muito mais próximo, envolto em camadas mais complexas, talvez uma mulher que tenha sido salva em criança pelo nosso primeiro grande herói? Calista é uma mulher sim, apaixonada e expectante, mas antes de tudo, é uma mulher-soldado, movida pelo desejo de vingança e justiça. “A história conta que o suldório, ao ver o chefe imolado na pira, revelou a sua verdadeira identidade e saltou para as chamas unindo o seu destino ao do herói luso”, contudo, esta Calista, este soldado, revela que o seu futuro, que deveria estar selado ao de Viriato, é muito mais do que tragédia. É um exemplo de resiliência para o mundo das Mulheres.
VIRIATO MEU HERÓI é assim um tributo pessoal e singelo a toda uma perspetiva imagética construída desde a infância, consolidada pela minha permanência em Viseu (cidade de Viriato – onde muito dificilmente ele alguma vez tenha estado), um herói implantado no imaginário de qualquer português e símbolo de coragem e da memória coletiva de um povo que reconhece no seu exemplo de bravura a necessária força para resistir e superar as adversidades da vida, Viriato como arquétipo de união e determinação.
Viriato tem sido louvado e honrado em diversas obras, desde o Viriato Trágico (1.º poema Épico?) de Braz Garcia de Mascarenhas (1699), obra com 780 páginas desenvolvendo 20 cantos em 102 estrofes de 8 versos. Depois contados às crianças por João de Barros. Depois investigado por tantos historiadores. Depois o Estado Novo tornou-o o símbolo do génio beirão. Na banda desenhada foi ilustrado e honrado por dezenas de artistas nacionais e estrangeiros.
Desenvolvido em oito cantos de quadras simples, Viriato meu herói desenvolve essa lenda poética, ao mesmo tempo trágica e inspiradora, da mulher apaixonada que encara o seu destino, protetora e cuidadora que ama à distância, consciente de uma missão cívica e heroica, em sacrifício da sua própria felicidade na terra.
A obra depois da apresentação no RIV 14terá uma outra apresentação brevemente em São Pedro do Sul/Santa Cruz da Trapa. Boas leituras poéticas. Viva Viriato.
Carlos Almeida
















