O número de utentes sem médico atribuído tem vindo a crescer, sendo já superior a um milhão em Portugal. Na prática, isto significa que mais de um milhão de pessoas não tem um rosto conhecido a quem recorrer em momento de dúvida ou preocupação com a saúde, demora mais tempo a ter consultas e a fazer exames e tem, muitas vezes, idas desnecessárias às urgências hospitalares.
Mas o impacto vai mais longe – a ausência de um médico de família pode significar diagnósticos mais tardios, falhas na prevenção e até desmotivação para cuidar da saúde, com perda de algo essencial: a continuidade de cuidados. Ao orientar a tomada de decisões, reavaliar sintomas e acompanhar doenças crónicas, o médico de família tem uma visão global da pessoa, ao invés de ver um problema de cada vez e de olhar para a saúde de forma fragmentada.
Em comunidades mais pequenas ou mais envelhecidas, os médicos de família não são apenas profissionais de saúde que prestam cuidados. São também parte da rede comunitária, com conhecimento das realidades locais, das histórias das pessoas e das dificuldades das famílias, sendo capazes de adaptar os cuidados às necessidades reais de cada utente e da sua família.
A escassez de médicos nos cuidados de saúde primários não é um problema novo, mas tornou-se mais visível nos últimos anos. Sem médicos suficientes nos centros de saúde, a pressão recai sobre os hospitais, que acabam por receber casos que poderiam ser resolvidos localmente. O resultado é um sistema mais lento, mais caro e menos eficiente, com urgências sobrelotadas e utentes frustrados com a demora no atendimento.
Outro aspeto fundamental prende-se com a prevenção. Consultas de rotina, rastreios e aconselhamento personalizado são pilares da medicina familiar que ajudam a evitar complicações futuras. A ausência desse acompanhamento aumenta o risco de doença, conduz a tratamentos mais complexos e, em última instância, traduz-se em maior sofrimento para os utentes e em custos acrescidos para o Serviço Nacional de Saúde.
Por fim, importa sublinhar que a relação entre médico de família e utente não se constrói num único contacto. É uma ligação que se fortalece com o tempo, baseada na confiança, na proximidade e no conhecimento mútuo. Quando esta relação não existe, perde-se não só um profissional de saúde, mas também um aliado na gestão da saúde e da doença.
Garantir médicos de família para todos exige medidas políticas que criem condições de trabalho atrativas e sustentáveis no SNS, sobretudo nas zonas mais carenciadas. Mas também depende da mobilização da comunidade, que deve reivindicar cuidados acessíveis, contínuos e humanizados. Está em causa não apenas o bem-estar individual, mas também a solidez e o futuro do sistema de saúde.
Valéria Garcia














