O que é o silêncio?
A ausência de palavras? Aquilo que as palavras não conseguem dizer? Aquilo que elas apenas deixam adivinhar? O implícito? O indizível?
Quando falamos de silêncio, estamos a referir-nos ao silêncio sideral à escala das galáxias? Ou ao silêncio a que estamos votados neste “solitário andar por entre as gentes”? Estaremos a falar de emudecimento, de mutismo ou de um critério, de uma escolha?
O silêncio é significativo. Jean Paul Sartre dá-nos conta disso quando afirma “se taire ce n’est pas être muet c’est se refuser de parler, donc parler encore”[1].
O silêncio pode ser entendido como uma manifestação de ceticismo. Na Antiguidade, Crátilo renunciou ao uso da palavra como inadequada ao real, preferindo indicar com o dedo os objetos que o rodeavam. Pode ser ainda uma demonstração de “certeza muda” derivada dos pré-socráticos, ou então o “silêncio libertador” preconizado por Nietzche, perante a certeza trágica da inadaptação de todo o discurso à existência humana.
Num sentido teológico, moral, quem não sabe calar, para refletir, não tem capacidade para testemunhar a verdade. O silêncio exige fortaleza, prudência e riqueza interior.
No campo ascético, o silêncio é, muitas vezes, praticado como mortificação da língua e representa a condição essencial para o crescimento da vida espiritual, facilitando o diálogo com Deus.
Porém, todos sabemos que há silêncios ameaçadores que nos agrilhoam no tempo. Lembremos os vários mecanismos inquisitoriais e todas as formas de ditadura, espaços de negação da palavra. Contudo, é preciso salvaguardar que falar muito e nada dizer é também uma forma de silêncio. Ser ostracizado por ruídos intermináveis, por uma acumulação constante de informações que nos remetem para o mutismo, para a rejeição ou a indiferença, são outras faces deste prisma que é o silêncio.
Na música o silêncio é a ausência de som. Mas como pode o som existir sem a ausência em que se inscreve? No conjunto, na melodia, como separar o som e o silêncio que são cúmplices e mutuamente se constroem?
Na pintura, uma superfície branca é tão significativa quanto o seu preenchimento. Pode comunicar-nos mais do que inúmeros traços nela inscritos.
E na poesia?
Eduardo Lourenço diz-nos: “(…) A poesia é sempre voz em luta íntima com o silêncio de onde nasce e para onde reflui uma vez nascida. É no lábil espaço entre dois silêncios, metáfora ou eco de cada existência, que a poesia existe (…)”[2].
A palavra criada no seio do silêncio é sua filha. Ele a gerou e para ele deve refluir. O silêncio é o princípio (No princípio era o verbo, diz o apóstolo S. João) e será o fim. “Le mot de la fin est aussi muet que le mot du commencement, c’est le même et nous ne le connaissons pas”[3].
Clara Rocha, a propósito da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, fala-nos da “ importância do silêncio como processo gnosiológico que possibilita a escuta atenta do ser”[4] e ilustra as suas afirmações com palavras que transcreve da «Arte Poética IV»: “Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos (…). E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir (…). O poeta é um escutador”[5].
George Steiner no seu ensaio Langage et Silence (2010) lembra-nos que quanto mais falamos mais calamos.
Eugénio de Andrade no seu livro Os Afluentes do Silêncio (1968) acusa a banalização das palavras: “O silêncio é a minha maior tentação. As palavras estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro”.
As palavras devem ser parcas, mas densas, carregadas de sentidos, valorizadas pelos mistérios que contêm. O silêncio deve ser a orla da palavra, resguardando-a da vulgarização, da ineficácia.
Vergílio Ferreira pede-nos: “Não ouças só as palavras que ouvires, ouve-lhes também o silêncio, se o tiverem”[6].
Ouçamos, serenamente, os silêncios, os nossos silêncios. Fujamos aos ruídos que incomodam e nos impossibilitam a arte da escuta.
[1] Jean Paul Sartre, Qu’est-ce que la Littérature, Paris, Gallimard, p.32.
[2] Eduardo Lourenço, Prefácio a Vocação do Silêncio, de Albano Martins, Lisboa, INCM, 1990, p.13.
[3] Anne Cauquelin, “Temps du silence”, in Dictionaire Critique de la Communication, Paris, Presses Universitaires de France, vol. I, 1993, p.174.
[4] Clara Rocha, “Sophia de Mello Breyner Andresen: Poesia e Magia”, in Colóquio / Letras nºs 132-133, 1994, p.
[5] Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, vol.III, Lisboa, Caminho, p.166.
[6] Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa, Bertrand, 1992, p.235.
















