Aqui há um ano, pus-me em Lisboa, e fui ao “Colombo” comer, no “KFC”, umas pernas de frango, que adoro, apesar daqueles fritos saturados e óleos estrambólicos que, de tão saborosos, até aparentam ser saudáveis. Mas como dias não são dias, e não é corrente fazer surtidas ao sacrossanto território da Corte, tal não é “pecado” que me derrube.
Como o movimento era muito, enquanto a minha mulher fazia o pedido, fiquei com a responsabilidade de arranjar mesa. Depois de porfiar, encontrei uma, com quatro cadeiras.
Sentei-me numa, pus um casaco a marcar a outra, sobraram duas.
Daí a pouco, um jovem aproximou-se, e perguntou-me:
– Posso levar uma cadeira?
– Pode, com certeza.
Agradeceu, e foi à sua vida, fazendo sinal à companheira, que já tinha mesa, mas estava apeada. Fiquei a olhá-los, e a invejar-lhes a idade.
Acto contínuo, uma senhora de idade, com um rabo do tamanho de uma roda de um carro de bois, pegou na cadeira sobrante, levou-a com ela, arrastando-a, e nem uma satisfação me deu. Foi tudo dela. A má educação em pessoa, fazendo da idade um estatuto.
Desde esse dia, passei a franzir o sobrolho à repetidamente incensada boa educação dos idosos e à vilipendiada má criação dos jovens. Fiquei vacinado.
Tempos depois, vivi um episódio semelhante.
Nas férias, a praia não faz o meu género, mas, pela minha neta, lá tem de ser. E é por São Martinho do Porto, terra de boas gentes, que me perco, fazendo da linda baía um local de repouso absoluto, durante uma semana. Ponho uns calções de banho, calço uns chinelos, visto uma t-shirt, e mantenho-me teimoso na resistência em fazer-me à água. Repugna-me banhar-me onde outros lavam as partes, incomoda-me a areia no meio dos dedos, fico desconfortável besuntado com creme, aborrece-me ter de levar com a bola despachada dos pés de quem a não sabe jogar direito, tenho repugnância por algas e limos. Dito isto, enfio-me na barraca, a coberto de indiscrições, e embrenho-me na leitura de jornais, que cedo devoro. Não leio livros, estou tão contrariado que não há modos de me concentrar.
Acontece que, já fora do período de férias, chegámo-nos a um lugarejo do Norte, para espairecer das angústias mareantes.
Lá chegados, precavendo-me, fiz no multibanco um levantamento de numerário. Para as primeiras impressões, e porque detesto filas, fiz um levantamento de 150€. No preciso instante em que o dinheiro saía da caixa, a minha mulher telefonou-me, eu disse-lhe onde estava, pedi-lhe para vir ao meu encontro, fazendo-me eu ao caminho.
Olhando a serra, vi o sol reflectido no cume, dando-lhe o brilho próprio dos fins de tarde calorentos. Alaranjado.
Sem contar, senti um inesperado toque no ombro, e ouvi uma voz que me disse:
– O sr. não esteve agora no multibanco?
– Sim, estive.
– Olhe que deixou lá dinheiro, mas eu não lhe toquei.
Ao nosso encontro, vinha já a sua companheira com um molho de notas de 10€, quinze, que me passou para as mãos. Inteiras, sem faltar uma. Resta dizer que o jovem casal aparentava andar na casa dos 20 e poucos anos, e que, junto ao multibanco, sentada num mocho, estava uma senhora idosa, que tudo viu e tudo calou. Foi a prova que me faltava para comprovar quão somos injustos na desvalorização e na diminuição dos jovens de hoje, que não têm valores, que são isto e mais aquilo, tudo delinquentes sem futuro.
E nem à minha mulher contei o sucedido, logo eu que ando sempre a repreendê-la por, sem necessidade, deixar as luzes acesas, em casa.
Bem prega, Frei Tomás!
















