Passeio a minha cadela todas as manhãs cedo durante uma pausada e prazerosa hora
e meia de ar que, além de livre, é intenso de Natureza, esteja eu onde estiver. Pode ser
a serra da Lousã, a praia da Ria Formosa, o bosque de Vale de Canas, a margem mais
“esconderija” do rio Mondego. E todos os dias, essa pausada, prazerosa e generosa
hora de comunhão e amor incondicional com a minha cadela é grata fonte de
introspeção e inspiração. Invariavelmente chego à mesma conclusão:
A identidade do nosso país está permanentemente escancarada aos nossos olhos,
como se janela descarada fosse, a mostrar bela donzela a trocar de roupa logo pela
manhã. É irresistível não espreitar. Como pode ser possível confinar tamanha beleza,
refém tantas vezes de mentalidades caducas? Bem sei que o dinheiro e o jogo politico
presidem a tudo nesta vida, mas, enquanto livre pensador, continuo a acreditar na
utopia do belo, da Natureza e dos animais e da convivência entre pessoas do
Bem….não “de bem”, que isso é dogma e estratégia obscurantista e enganadora de
papagaios de falinhas mansas.
O meu amor incondicional, como o que tenho com a minha cadela, é por esse Portugal
da plenitude. O mesmo das vinhas e dos vinhos, dos regatos saltitantes, das planícies
morenas ou das areias douradas salpicadas de um azul tão português que parece
verde bandeira. E este é o mesmo Portugal que se afoga todos os dias num mar negro
de angústias e mesquinhez. Quem se admira ainda que muitos dos nossos bons e
melhores procurem singrar fora de portas?
Eu Amo o meu país, por ter a voz da Amália e do Zeca na garganta, a magia de Ronaldo
nos pés e no peito, a poesia avassaladora de Pessoa ou Camões ou a prosa de
Saramago, Lobo Antunes, Torga, Eça e tantos outros que fazem desta nossa “jangada
de pedra” uma deslumbrante Biblioteca Joanina. Eu apaixono-me todos os dias pelo
meu país, com as filigranas das minhotas nos dedos, os tapetes de Arraiolos na calçada
e a calçada portuguesa na passada. Mais as Bordaleiras da Serra da Estrela no melhor
queijo do mundo, a Xávega nas redes da Costa de Prata. E um Bordallo no jarro de
vinho da minha cozinha. Adoro este meu Portugal que dança o nosso “samba” dos
Pauliteiros de Miranda, o dos doces conventuais a engordar os dias, do vinho do Porto
no final de boca, do Galo de Barcelos a colorir os postigos, as paredes ou as portas.
Este meu monumental Portugal dos Jerónimos e dos Clérigos, dos Caretos, dos
azulejos e da gorda açorda alentejana…
Amo de paixão este País de artistas que temos e que de tanto o termos, já está mais
que na hora de sermos!
Lá está! Zeca dizia e bem que sabia – «Nós temos é que ser gente!»
















