ARTIGO DE OPINIÃO: (i)literacia em Saúde: Dismorfia Dento-facial

18/11/2022 18:30

Diz o povo que o peixe morre pela boca, mas para comer o peixe é importante que tenhamos uma boa saúde bucal, o que contribui imenso para o nosso bem-estar. Contudo, existem patologias, vulgo doenças, que podem estar à vista de todos mas serem desconhecidas. Dar a conhecer estas situações é determinante para sensibilizar as pessoas e despertar a atenção para detalhes que podem fazer a diferença, como é o caso da dismorfia dento-facial.

O que é a Dismorfia Dento-facial (DDF)?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, depois das cáries dentárias e das doenças periodontais (das gengivas), a má oclusão dentária é a terceira causa mais prevalente de alterações na saúde oral. (2) A dismorfia consiste na alteração da forma de um órgão ou aparelho e está-se perante uma dismorfia dento-facial quando a má oclusão dentária se associa a alterações craniofaciais. Estas alterações podem afetar a aparência estética, a função e o bem-estar psicossocial das pessoas. (1, 2, 3) A oclusão dentária consiste na interação entre os dentes superiores (maxilares) e inferiores (mandibulares), quando estes realizam contacto entre si. (2)

Que tipos de DDF existem? 

Estas alterações na oclusão podem ser classificadas em discrepância vertical, transversal e ântero-posterior. (2) A discrepância vertical pode ser apresentada como uma mordida profunda, com diminuição da dimensão vertical da face, ou uma mordida aberta, com aumento da dimensão vertical da face.  A discrepância transversal é descrita como uma mordida cruzada, estando associada à largura “insuficiente” da arcada superior (maxila). (1,2) A discrepância ântero-posterior consiste na classificação da má oclusão classe II e III. A oclusão considerada normal denomina-se classe I. (fig. 1)

O que pode causar estas alterações? 

Vários fatores podem ser causa desta condição, contribuindo para o efeito fatores hereditários, mutações genéticas, idade, sexo, etnia, anomalias dentárias, doenças congénitas e musculares, desequilíbrio hormonal e comportamentos da pessoa. (1, 2, 4)

Cáries dentárias e outras lesões, traumatismos dentários, alterações do desenvolvimento e os hábitos de higiene oral, são condições comuns observadas na criança e que influenciam o estabelecimento da oclusão normal. 

Bebés e crianças pequenas, frequentemente, apresentam maus hábitos orais inconscientes que, dependendo da natureza e duração destes, podem influenciar o crescimento e desenvolvimento craniomaxilofacial. (1, 4)

Crianças que respiram maioritariamente pela boca, por obstrução da via aérea, têm um padrão respiratório alterado do nariz para a boca, o que altera a posição da língua e da mandíbula e, consequentemente, o equilíbrio dos músculos periorais e orais. Estas alterações levam a anormalidades anatómicas por alteração do padrão de crescimento dos maxilares.  Do mesmo modo, o hábito de sucção e de mordedura dos lábios ou bochechas em criança leva a contrações dos músculos da boca e predispõe a alterações dentárias e do crescimento do maxilar.  Também, crianças que realizam sucção do dedo, vulgo chuchar no dedo, de forma consistente ao longo do seu crescimento levam a um deslocamento da língua para uma posição mais baixa, e alterações do equilíbrio das pressões intraorais, comprometendo o equilíbrio de crescimento dentário e dos maxilares. (1)

Deste modo, devem reunir-se esforços para identificar, prevenir, orientar e tratar todos estes fatores influenciadores. Para tal, é importante que as crianças consultem desde cedo o seu médico dentista e/ou Estomatologista, para avaliar quaisquer alterações que possam ser corrigidas. (1)

As DDF interferem na qualidade de vida?

Esta patologia pode afetar a qualidade de vida das pessoas, uma vez que provoca alterações na mastigação, na fala, na respiração, queixas da articulação temporo-mandibular e na harmonia dentária. Para além destes fatores, o desgaste psicossocial também é relevante, pelas alterações estéticas que estas dismorfias acometem. (1,3, 5)

O que posso fazer se for diagnosticado com uma DDF e que tratamentos existem?

Se existir a suspeita de uma dismorfia dento-facial a primeira coisa a fazer é consultar o seu médico dentista ou estomatologista e um médico especialista em Cirurgia Maxilo-facial.

A correção destas alterações dentárias e faciais pode ser realizada por tratamento ortodôntico, unicamente, ou por tratamento ortodôntico-cirúrgico. O tratamento ortodôntico-cirúrgico, para além da fase ortodôntica realizada pelos médicos dentistas ortodontistas, também implica cirurgia ortognática para reposicionamento dos maxilares, a qual é realizada pelos Médicos de Cirurgia Maxilo-facial. 

O objetivo da correção das anomalias dento-faciais é a correção da oclusão e da harmonia facial, estabelecendo proporções faciais simétricas. (3) Para tal, procedimentos cirúrgicos adicionais como rinoplastia (cirurgia ao nariz), genioplastia (cirurgia do mento/queixo) ou correções de partes moles da boca podem ser necessários e devem ser realizados após as correções esqueléticas.

Estes tratamentos permitem, assim, uma melhoria dos fatores funcionais e psicossociais e consequentemente a melhoria da qualidade de vida destas pessoas.

A qualidade de saúde pode ser várias dimensões, como o conforto, estética, bem-estar, entre outras. A DDF afeta várias destas dimensões e o tratamento da mesma pode exponencializar o bem-estar da pessoa. Não obstante, o cuidado com a saúde bucal pode prevenir a DDF. 

Assim, uma comunidade informada é uma comunidade empoderada para prevenir e/ou procurar tratamento para DDF.

 

Bibliografia

  1. Common dental diseases in children and malocclusion | Internal Journal of Oral Science
  2. Factors influencing different types of malocclusion and arch form-A review | Journal of Stomatology, Oral and Maxillofacial Surgery 
  3. Contemporary Correction of Dentofacial Anomalies: A Clinical Assessment | Dentistry Journal  
  4. Masticatory muscle function affects the pathological conditions of dentofacial deformities | Japanese Dental Science Review.
  5. Masticatory function in patients with dentofacial deformities before and after orthognathic treatment—a prospective, longitudinal, and controlled study, European Journal of Orthodontics | European Journal of Orthodontics 
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