ARTIGO DE OPINIÃO: Escrita de salvação

23/03/2022 18:30

Se foi o cravo de Scarlatti que livrou Blimunda da sua doença (Memorial do Convento), rodeando-a «de música como se mergulhasse num profundo mar», também Wang-Fô escapou à fúria do Imperador no «mar de jade azul» que ele mesmo pintou (A fuga de Wang-Fô). Se foi a telefonia que salvou Alcaria do isolamento e do desânimo – bem como a relação de Batola e da mulher – trazendo o mundo longínquo para dentro da venda (Sempre é uma companhia), também o acordeão de Hans, o pai adotivo da rapariga que roubava livros, afastava o medo e a tristeza, empurrando o mundo imediato para fora de casa, tal como faziam os livros roubados por Liesel.

Quando a vida se torna um labirinto, a arte é o fio que se vai desenrolando em busca da saída. Nem sempre se encontra, mas as janelas que a música ou a pintura ou a literatura vão abrindo pelo caminho acendem a luz, ainda que breve, dessa possibilidade. Só a arte permite criar os mundos que tornam o mundo habitável, só a arte permite, através dos mundos que cria, reconstruir os dias que se desmoronam e resgatar a esperança dos escombros.

Os diários escritos por crianças ou jovens em alturas de guerra são as janelas que os seus autores tentam abrir no meio da escuridão, as janelas por onde se tentam evadir quando não podem fugir, as janelas por onde gritam por ajuda quando lhes é negado socorro. Foi o caso de Zlata Filipovic, que escreveu, aos 11 anos e durante a Guerra da Bósnia, o texto que viria a ser publicado em 1993 como O Diário de Zlata. Mais tarde, em 2006, juntamente com Melanie Challenger, organizou o livro Vozes Roubadas – Diários de Guerra, que compreende catorze desses diários, testemunhos reais de vivências marcadas por guerras que ocorreram entre 1914 e 2004.

Rutka Laskier e Anne Frank têm em comum o facto de terem nascido no mesmo ano (1929), o facto de terem escrito um diário (Rutka entre janeiro e abril de 1943; Anne entre junho de 1942 e agosto de 1944) e o facto de terem morrido em campos de concentração (Rutka em Auschwitz; Anne em Bergen-Belsen), naquela idade em que ninguém devia morrer. Não conseguiram passar pelas janelas que abriram. A escrita não as salvou da morte, mas eu gosto de pensar – porque acredito nisso com toda a minha alma – que a escrita as salvou da vida.

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