Ainda eu remexia em revistas e páginas de jornais à procura das aventuras de cavalaria medieval, e já me aparecia para leitura uma das mais sensíveis e magistrais obras narrativas de Cavalaria, a imortal história do Cavaleiro da Triste Figura, que acompanhado pelo seu fiel escudeiro, Sancho Pança, avança por montes e vales, lutando contra moinhos de vento e cavaleiros imaginários em nome da justiça. Esta obra (essencial em qualquer biblioteca) deixa-nos um delicioso retrato do anti-herói, Dom Quixote, o fidalgo enlouquecido, representando a capacidade de transformação do homem em busca dos seus ideais, ou a preservação da natureza humana solidária e cavalheiresca num mundo cada vez mais artificial e pessimista.
Este grande livro é muito mais do que um romance de cavalaria. Pelo contrário, ao satirizar os romances de cavalaria em voga ao longo dos séculos XVI e XVII, o Dom Quixote afirma-se como o clássico fundador do romance moderno. O humor, as digressões e reflexões, a oralidade nas falas e a metalinguagem marcaram o fim da Idade Média na literatura.
Repleto de aventuras e situações fantásticas, este tem sido considerado um livro inesquecível para sucessivas gerações de leitores. Felizmente agora temos a possibilidade de o revisitar, numa edição (recente em Portugal) em Banda Desenhada, com adaptação e argumento de Philippe Chanoinat e Djian, e arte e desenhos de David Pellet, com a chancela da Levoir e o patrocínio da RTP (coleção Clássicos da Literatura em BD).
Cervantes escreveu esta obra-prima, uma dos romances mais clamados da história da literatura universal. Antes de ser o genial escritor, foi escravo durante mais de cinco anos (com cinco meses a ferros). Voltou a estar preso mais tarde. A publicação de Dom Quixote, aos 57 anos, ajudaram a recuperar a condição e as finanças. Foi sepultado num túmulo anónimo, no Convento de las Trinitarias Descalzas, sem qualquer inscrição com o seu nome, por vontade própria.
O autor identifica-se com o herói do romance, numa paródia aos romances de cavalaria, considerado o primeiro romance moderno. Cervantes compilou diversos textos oriundos da tradição oral ou arquivos consultados, inserindo histórias dentro a história principal, odes ou contos, reflexões literárias e filosóficas, outras de ordem política, encadeando cenas e perspetivas, marcando o fim da Idade Média na Literatura. A obra ainda acompanha a História da Espanha no século XVI, tempos de enormes mudanças culturais, políticas e filosóficas, acompanhando a abertura da Europa a novos mundos e perspetivas decorrentes da expansão europeia e dos ideais renascentistas. Também por isto Cervantes pode ser encarado como um Homem da renascença, por pensamento e forma de estar na vida.
Existem múltiplas versões da obra, em formato de narrativa clássica ou com desenhos, ilustrações, ou mesmo em banda Desenhada. Esta adaptação para Banda Desenhada que vos trago é uma obra refrescada, num estilo realista de fácil compreensão por todas as idades, de uma leitura fácil e encadeada. A arte de David Pellet é reconhecidamente modernista, indo de encontro a uma assumida articulação e conciliação entre o desenho tradicional (visível nas ilustrações ou vinhetas de lugares, monumentos, ambientes) e a arte digital (nos sombreamentos, fundos neutros, iluminação e contrastes de luz, verdes da natureza ou os tons quentes da Espanha de La Mancha). Aqui fica a minha proposta de uma boa prenda de Natal, para miúdos ou graúdos, para enriquecer as bibliotecas que ainda não se orgulhem de possuir esta obra magistral. Já á venda.
















