ARTIGO DE OPINIÃO: Dia Mundial das Bibliotecas

06/07/2022 19:30

O Dia Mundial das Bibliotecas celebrou-se, com múltiplas atividades, um pouco por todo o lado, no dia 1 de julho.

Tive o gosto de participar numa sessão comemorativa na Biblioteca Municipal de Sátão, alojada no antigo Solar dos Albuquerques, um edifício do século XVIII, renovado para a prestação de um serviço público de qualidade: o de incrementar a educação e a formação de leitores, fazendo jus ao propósito da UNESCO.

Nesse dia, escolhi como tema principal para a minha participação a importância de uma das bibliotecas mais famosas da Antiguidade: a Biblioteca de Alexandria. Tomei como apoio para a minha prestação o livro O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, publicado em Portugal, pela Bertrand, em 2020. Trata-se de uma obra extraordinária que nos transporta até à invenção do livro na Antiguidade e nos mostra a importância que os livros sempre tiveram e têm no florescimento e desenvolvimento humano em todas as épocas da História.

A escritora espanhola, investigadora e apaixonada por livros, aproveitou a pandemia para lançar este volume que foi dos mais lidos no confinamento, constituindo um fenómeno de vendas na Europa e um dos melhores livros de 2019.

A Biblioteca de Alexandria, no Egipto, foi uma criação de Demétrio de Faleros, cumprindo, hipoteticamente, um sonho de Alexandre Magno, que só viria a concretizar-se sob a égide de Ptolomeu I ou II, no século III a.C. Nomes como Zenódoto de Éfeso e Calímaco, o geógrafo dos livros pela sua criação do catálogo desta biblioteca, destacam-se de entre um grande número de sábios e investigadores que aí trabalharam.

A autora mostra-nos a aventura que terá sido o apetrechamento desta Biblioteca, destacando o papel dos “caçadores de livros” que, munidos de grandes fortunas, partiam para os dois lados do mundo à “caça” de livros considerados tesouros e objetos de manifestação do poder dos reis e imperadores que os queriam exibir. Davam-lhe tanta importância como aos desfiles militares para ostentação da sua supremacia.

A construção e apetrechamento desta biblioteca partiu de um desejo megalómano de formar uma biblioteca absoluta e perfeita que reuniria todos, imagine-se, todos os juncos, papiros e pergaminhos desde o início dos tempos. E, para isso, os senhores do Egipto não olhavam a meios: confiscavam o que não podiam comprar. Os “livros” eram cobiçados e representavam o esplendor do país. A fome de “livros” era desenfreada, nenhum poderia perder-se. A construção desta biblioteca constituiu-se, assim, como a primeira tentativa de globalização do conhecimento, ainda antes da invenção da imprensa. A Biblioteca acolhia as palavras dos gregos, dos judeus, dos egípcios, dos iranianos e dos indianos, uma tentativa de fusão do conhecimento universal, uma forma simbólica de unir o mundo.

 A web é uma réplica do funcionamento desta e de outras grandes bibliotecas. Timothy John Berners-Lee, o cientista responsável pelos conceitos que a estruturam, procurou nelas a sua inspiração. A Internet alimenta, hoje, o sonho da globalização, da partilha acessível de todas as fontes de conhecimento, na sua dimensão plural. E hoje, qualquer leitor (do mundo rico, subentenda-se) pode aceder, a partir de um computador, a ligações que o levam aos tesouros que incluem os livros, sem ter de se deslocar ou adquirir a preços inauditos o conhecimento.

Esta biblioteca perdeu-se no tempo. Sujeita a vicissitudes várias, a incêndios, talvez premeditados. As circunstâncias da sua criação alteraram-se. As prioridades foram-se modificando e a cultura passou, vezes sem conta, a ser um parente pobre para o governo das nações. No entanto, esta herança, esta ânsia de conhecimento não se esgotou. A prová-lo está o número de bibliotecas públicas que existem por todo o lado. Bibliotecas que hoje são mais do que depósitos de livros pela variedade dos seus instrumentos. Bibliotecas que devem continuar a ser palco para realizações que permitam a criação de comunidades de leitura, que possam continuar a fomentar o diálogo entre escritores e leitores, num verdadeiro espaço de comunicação, isto é, no sentido inato da palavra comunicar, tornar comum a nossa comum humanidade.

Em 2002 foi inaugurada a nova biblioteca de Alexandria, exatamente no mesmo lugar onde foi criada a primeira.  Volvidos tantos séculos, este edifício, qual astro, continua a iluminar o mundo e os livros, sob todos e quaisquer formatos, continuarão a existir para nosso gáudio.

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