A nossa vida é feita de objetos. Precisamos deles para tudo e mais alguma coisa e até quando não os estamos a utilizar sentimos a sua falta. Na verdade até conseguimos viver (não por muito tempo) sem o garfo, o sapato ou o telemóvel, mas só o facto de pensar que temos de viver algumas horas sem o conforto, a segurança e comodidade que eles nos proporcionam, esse tempo parecerá interminável. Ao longo do séc. XX, o desenvolvimento tecnológico trouxe-nos novos materiais, permitindo novas formas e possibilidades; evoluímos em todas as áreas. O plástico, o acrílico, o poliestireno, entre outros, tornaram a nossa vida muito mais fácil e lá fomos construindo e fabricando objetos… e cada vez mais objetos. Objetos que foram substituindo outros, outros que se tornaram lixo, lixo que se foi acumulando. Hoje em dia vivemos com coisas que usamos e com outras que ocupam espaço e por vezes nem nos deixam respirar. Somos consumistas e comodistas, tentando empurrar “com a barriga” problemas que deveríamos ter atenuado há muito tempo e cuja resolução estamos sempre a adiar.
Entretanto lá vão surgindo dinâmicas e políticas de reciclagem e reaproveitamento, mas já não vamos a tempo de evitar a grande mancha de lixo do Pacífico, com os seus 1,6 milhões de Km2, 17 vezes o tamanho de Portugal.
Ao escrever este texto não é minha intenção que este seja um artigo que apele à necessidade de medidas urgentes e drásticas sobre o lixo e o meio ambiente, que considero que deveriam ser mais radicais e eficientes, mas sim abordar esta questão de uma outra forma: a artística.
Apesar das questões ambientais terem sido já abordadas ao longo do séc. XX por vários artistas plásticos, como por exemplo Joseph Beuys, nos dias de hoje é importante fazer a ligação da arte ao meio ambiente, porque de facto, a arte pode e deve ser um meio de consciencialização, sensibilização e reflexão para as questões ambientais.
Atualmente vários artistas fazem o reaproveitamento e reutilização de objetos e materiais, que consideramos como lixo, para a sua atividade artística, colocando-os à mercê da sua criatividade.
Em Portugal, o artista Bordalo II tem vindo a desenvolver um trabalho fantástico, construindo formas, essencialmente inspiradas na natureza. Utilizando pedaços de plástico, metal e outros desperdícios, elaborando novas formas, que unifica através da cor e da utilização do graffiti. As suas obras estão espalhadas pelo país e pelo estrangeiro. Em Viseu podemos ver duas das suas obras, uma na Rua do Coval, próximo do Parque Urbano de Santiago, e outra no espaço Carmo 81.
Outro nome que tem vindo a ganhar projeção em termos artísticos é Ricardo Ramos, mais conhecido por Xico Gaivota, cuja obra realizada com pedaços de plástico e detritos que recolhe na praia nos reporta a uma consciência ambiental que deve ser uma responsabilidade de todos. https://youtu.be/Ou3vG7Dy3w8
Interessante também será uma pesquisa pela obra dos artistas estrangeiros Vik Muniz, Sayaka Ganz ou Erika Iris, que fazem abordagens completamente diferentes, apropriando-se de objetos e materiais de forma muito particular e interessante.
Claro que este tema é complexo, mas apesar de todas as políticas que se possam implementar, a solução passa por ações simples e conscientes, ações responsáveis. Neste âmbito a arte deve ser também uma forma de questionar e proporcionar uma reflexão sobre as nossas atitudes, alertando-nos para as suas consequências no futuro.
















