ARTIGO DE OPINIÃO: Cartão Branco / Fairplay

03/11/2022 17:51

Na minha missão de Embaixador do PNED, tenho percorrido algumas escolas do 2.º ciclo e secundárias do Distrito e encontro estupefação por parte de muitos jovens quando se lhes é apresentado o Desporto – nos seus valores. Muitos, infelizmente, não são praticantes. Têm a noção de que o desporto é o que as televisões e redes sociais amplificam, sendo essa imagem quase sempre o que não tem lugar no desporto: violência, racismo, corrupção e o “vale tudo” para a minha equipa “grande” ganhar. Vivemos momentos de grande mediatização de comportamentos na prática desportiva. A verdade é que os exemplos negativos são explorados e repetidos até à exaustão, ao contrário dos positivos (salvo raras exceções).

O consumidor prefere os primeiros. Felizmente temos muitos e excelentes exemplos dos segundos. São precisamente esses que o cartão branco sinaliza, promovendo o desporto no que de melhor tem na sua essência. “O Cartão Branco é um recurso pedagógico que visa enaltecer condutas eticamente corretas, praticadas por atletas, treinadores, dirigentes, público e outros agentes desportivos”. É um motivo de orgulho e motivação para quem o recebe e para quem está na génese dessas boas atitudes. 

O cartão branco é fairplay. “A sua exibição junto dos escalões de formação é especialmente importante para o reforço de competências, a nível do desenvolvimento pessoal e social, contribuindo para a assimilação e difusão de valores. No entanto, os Cartões Brancos podem ser alvo de mostragem em qualquer escalão/categoria, já que constituem também um estímulo e uma referência para os próprios, mas também para os restantes envolvidos na modalidade”. 

“Serve como uma forma que o árbitro tem de valorizar aquilo que são os bons comportamentos e os valores positivos do desporto”, referiu o ex-árbitro internacional João Capela, que é um dos principais promotores desta iniciativa. 

Queremos, todos, ver mais cartões brancos a serem mostrados. Queremos envolver as famílias no desporto com comportamentos responsáveis e ver atletas e treinadores (essencialmente) a terem atitudes de orgulho para com os seus. Para qualquer pai ou mãe é o maior motivo de regozijo o seu filho ter um comportamento ético e exemplar. O cartão branco não pode ser banalizado, não pode ser uma defessa do árbitro, mas em fase de crescimento aceitam-se critérios muito largos na sua aplicação.

É e será, sempre, um reconhecimento por uma ação.

Os valores éticos constituem-se, cada vez mais, como uma preocupação de grande importância. Temos de divulgar e promover as boas práticas adotando novas medidas junto dos mais jovens. O desporto é um poderoso instrumento de combate às desigualdades sociais. É possível competir com ética. Muitos já nos estão a ensinar isso. 

A importância destes cartões brancos, vendo o desporto como uma escola de valores, é tentar educar também quem está fora do campo. É educar quem está a ver o jogo. 

O investigador inglês, Steve Town, aponta para várias respostas num inquérito que realizou, em que os participantes identificam a necessidade de uma política de “tolerância zero para mau comportamento e o uso mais frequente de cartões vermelhos para racismo e uso de linguagem abusiva”, ainda que, a longo prazo, “a maior parte das pessoas reconheçam que o reforço positivo é melhor do que um sistema punitivo”. Foram mostrados 886 cartões brancos na época 21/22, o que representa uma subida de 45% desde o período pré-pandemia, perfazendo um total de 3.669 já registados desde o início desta parceria. O presidente da Confederação das Associações de Juízes e Árbitros de Portugal, Luciano Gonçalves, disse acreditar na introdução do cartão branco nas ligas profissionais de futebol.

Esperemos que a comunicação social seja, enquanto órgão de informação pertinente e rigoroso, um veículo de transmissão destas ações e, consequentemente, destes valores.

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