Este livro, publicado em fevereiro, pela D. Quixote, não escapou à minha atenção por dois motivos. Um deles, porque o autor foi meu professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Coimbra e, desde então, acompanho a sua atividade de grande ensaísta e teorizador literário e o seu papel na promoção e divulgação de autores de língua portuguesa. O outro, porque Lídia Jorge é, sem dúvida, uma das nossas escritoras da atualidade que leio e releio com admiração.
Na altura da saída do seu último romance, Misericórdia (2022), publiquei, neste mesmo espaço de comunicação, uma apreciação na qual dava conta da minha leitura desta obra extraordinária.
Vamos aos Diálogos. O autor, na Nota Prévia, apresenta as razões que o levaram a esta publicação. A primeira, por se tratar de uma grande escritora do universo da língua portuguesa por quem nutre uma enorme admiração; a segunda, motivada pelo «precedente» que foi a sua publicação do Diálogos com José Saramago em 1998.
Carlos Reis afirma que estes diálogos terão «uma lógica de interpelação, às vezes de discreta provocação, até mesmo, de discordância pontual». Segue-se um breve texto de Lídia Jorge, intitulado «Teoria e prática», onde a escritora fala da sua cumplicidade com Carlos Reis, acentuando, de modo particular, o momento sabedor e emotivo da sua Lição de Sapiência, proferida no momento de despedida da Universidade de Coimbra, significativamente subordinada ao «Elogio da Narrativa». A romancista guardou este testemunho de Carlos Reis «entre os textos fundadores mais brilhantes» e aceitou o convite para esta interação por saber que era desafiante estar frente a frente com alguém com um «arcaboiço teórico notável» sobre a narrativa e ela poderia oferecer-lhe a sua experiência, o relato da sua prática. Dois lados de uma mesma moeda.
Em seguida, o autor faz uma aproximação sumária à obra e ao percurso literário de Lídia Jorge, desde a publicação do seu primeiro romance O Dia dos Prodígios (1980), acompanhada de um conjunto de referências bibliográficas que mostram, muito bem, quanto tem seguido de perto os estudos da vasta obra da escritora, elaborados por conceituados críticos nacionais e estrangeiros e, ainda, uma compilação de textos diversos da romancista publicados em diversos suportes. Um grande contributo para os que quiserem investigar a obra desta notável escritora.
Seguem-se os Diálogos, que configuram a parte central da obra. Como apêndice, uma Carta de Lídia Jorge a Eduardo Lourenço. Um documento inédito. Deixemos uma palavra para a seleção criteriosa das epígrafes que abrem cada uma das partes do livro, muitas delas retiradas de textos/afirmações da nossa muitas vezes premiada romancista.
Os sete diálogos, interessante a simbologia do número, versam matérias de natureza diversa que vão desde a formação da escritora, passando pela sua conceção de escrita literária, a pertença a uma geração de escritores marcados por determinadas vivências históricas mais ou menos recentes no nosso país e no mundo, a questão da ligação com outros escritores e outros livros, a escrita de obras que passam por diferentes modos literários, narrativo, lírico e dramático, privilegiando o primeiro, a construção das suas narrativas, o papel da casa, da memória e da mulher na sua obra, entre outros.
Carlos Reis avisa-nos, de antemão, que não o movem grandes curiosidades biográficas em relação à autora e que falará com a sua convidada apenas sobre o que contribuiu para a sua construção como escritora. Contudo, admite que a inscrição da sua origem algarvia, «não como uma referência geográfica de raiz, mas sobretudo como uma experiência mental» marca a sua obra. Lídia Jorge concorda que foi na infância que aprendeu alguns dos mistérios da vida: como ela começa e como ela acaba, a noção da passagem do tempo, a dependência das pessoas em relação à Divina Providência, muito característica de um certo tempo e de uma certa interioridade, o exercício do poder sobre os mais fracos e a força da natureza sobre os homens.
Revelou ainda que antes de começar a ler descobriu o poder encantatório da escuta. Aprendeu a ler os lábios da avó enquanto lhe contava histórias. O seu percurso iniciou-se como uma ouvinte privilegiada. Destacou a importância de um seu professor, as suas leituras nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian e a sua formação na Faculdade de Letras de Lisboa.
A sua escrita resulta da sua experiência pessoal com a experiência de um tempo histórico que tem vivido. Rejeita o estatuto de escritora profissional, considerando-se um dos escritores «antena», definindo-os como «aqueles que escrevem em função daquilo que estão sentindo no ar do seu tempo (…) sismógrafos do tempo que passa». Reafirma a vontade de conservar uma memória do passado, mas, depois, caminhar em direção ao futuro.
Em relação ao seu processo de escrita, perante a questão dialética entre trabalho e inspiração, afirma que não sabe ao certo a razão pela qual nuns dias a escrita flui e noutros passa a vida a riscar o que escreve. Admite que faz uma espécie de planificação, sabendo, no entanto, que não vai cumpri-la, servindo apenas de esboço, de porto de abrigo, mas quase nunca ponto de chegada, na complexa interação entre realidade e ficção.
Em relação à problemática do leitor, confessa que o seu primeiro leitor é ela, um alter ego a quem indaga se o que escreve merece ser publicado. Só muito depois, no processo mais ou menos moroso da escrita de uma obra romanesca, é que se confronta com o leitor ou os possíveis leitores e as suas hipotéticas questões.
Afirma que não se sente romancista, vê-se, antes, como narradora. Constrói narrativas que pretendem interpretar o mundo através de narrações de vidas. O mundo existirá enquanto nós existirmos e o narrarmos. É essa a sua grande tarefa.
Trata-se de um livro muito interessante que nos permite conhecer na primeira pessoa uma escritora, o seu processo de criação, a sua visão do mundo, o seu papel e a sua relação com o tempo, o seu tempo. Um livro de leitura acessível para todos, pela fluidez do discurso, pelo diálogo interessante e lúcido que se estabelece entre ambos.
Um livro de leitura obrigatória, essencial para aqueles que depois de terem ouvido o seu discurso no dia 10 de junho não compreenderam as verdadeiras intenções cidadãs desta mulher e deturparam o sentido de uma mundividência histórica e identitária de um país que, afinal desconhecem, fazendo-nos lembrar que já Camões se queixava de sermos um país inculto, apesar da nossa bravura e da nossa coragem.
Parabéns aos dois!
Ana Albuquerque
















