ARTIGO DE OPINIÃO: A pandemia da alegria

25/06/2021 19:30

Muitas prosas pululam por todo o país interior (e não só) sobre a desertificação ou o sempre crescente abandono, nomeadamente dos mais jovens, do interior do país. A classe política, do alto da sua tão coerente incoerência e a maior parte das vezes afogada em burocrática tecnocracia, pouco mais faz do que, de quando em vez, lançar alertas supostamente sinceros e preocupados a propósito da insofismável verdade estatística, acabando invariavelmente por deixar tudo repousado nas tais “águas de bacalhau”. 

Os jovens, atraídos pelo “fulgor”, para não dizer frenesim, das grandes urbes, fogem das zonas rurais, interiores ou pouco urbanas e, na maior parte das vezes, para conquistarem uma independência há muito sonhada, longe das tenazes disciplinadoras, tantas vezes conservadoras e quase sempre castradoras dos seus progenitores que, invariavelmente, são (na sua óptica) espécimes retrógrados do século XXI e muitas das vezes realmente têm razão. O mais curioso é que (e falo em nome de experiência comprovada), quando “alimentada” culturalmente, essa massa jovem percebe precocemente que o mundo é e está onde a nossa liberdade de pensamento estiver e a arte é muitas das vezes o catalisador dessa abertura de fronteiras na estrada do conhecimento que leva ao coração dos homens. 

O problema é que, se esse alimento, tão avidamente procurado por eles, lhes for sendo proporcionado só muito esporadicamente e sem uma sistematização real, o apetite não sacia e a “fome” de civilização e de futuro subsiste. 

Venho, portanto, e mais uma vez alertar que é urgente tomar decisões políticas que façam realmente a diferença no panorama cultural no Interior. E que acabem de vez com esta espécie de apatia, viciada em “continuar a ser só interiorzinho” em muitos cantos e cantinhos dos recantos de Portugal. Felizmente há honrosas excepções. Infelizmente, são poucas ainda para transformar o chamado “Interior” em algo que exista por si só, sem necessidade de um rótulo diferenciador de teor negativo. E que isso se expresse em todas as áreas, incluindo a da esfera da Cultura, em muitos casos transformada em confortável “bolha” que se alimenta a si própria, em vez de alimentar o público – os chamados “acomodados culturais”. É urgente um investimento sério na Cultura, nos seus aparelhos e mestres, principalmente naqueles que tentam e muitas vezes fazem a diferença entre o “mais do mesmo” e uma real vontade de inovar, de captar o interesse e fixação dos jovens e das comunidades e de atrair visitantes e turistas. E, já agora, se não for pedir muito, elevar a Arte a bem essencial – que o é, pressionando o poder local para uma nova visão estratégica que torne o país um só palco de emoções e experiências tão ricas e diferenciadas que acabe por gerar a grande epidemia da alegria…

E a alegria gera felicidade e a felicidade é meio caminho andado até à riqueza intelectual e humana. Esta é a minha utopia.

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