O admirável mundo dos superiores

17/09/2026 19:30

Há pessoas que nasceram com uma missão verdadeiramente difícil: explicar aos outros que são intelectualmente superiores a eles. É uma tarefa exigente. Obriga a conhecer muita coisa, a citar muitos nomes, a corrigir os outros com frequência e, sobretudo, a nunca perder uma oportunidade de deixar claro que se pertence a uma categoria especial de seres humanos: os que compreenderam aquilo que os restantes ainda não conseguiram alcançar. No meio artístico, esta doença tem uma particular graça. Há quem transforme o gosto pessoal numa verdade absoluta, a erudição numa arma e a opinião numa espécie de certificado de qualidade. E há sempre alguém que, por fazer arte de determinada maneira, entende que todas as outras maneiras são menores. Como se a criação tivesse uma tabela classificativa e alguém tivesse sido nomeado árbitro. O problema é que a verdadeira inteligência costuma ser bastante menos ruidosa. Quem sabe muito, geralmente sabe também que há muito que não sabe. Quem ama verdadeiramente a arte não precisa de diminuir a arte dos outros para justificar a sua. E quem tem alguma coisa de realmente importante para dizer não precisa de passar o tempo a explicar-nos o quão importante é. Há uma certa elegância na humildade. E há qualquer coisa de profundamente cómico naquele artista ou intelectual que precisa de subir para cima dos outros para parecer alto. Porque, no fim, ninguém fica maior por conseguir fazer os outros parecer pequenos. Fica apenas mais sozinho. E talvez seja essa a ironia maior: enquanto alguns passam a vida a construir pedestais para si próprios, outros continuam simplesmente a fazer aquilo que interessa : pensar, criar e deixar que a obra fale.

António Leal
Encenador/Diretor Artístico/Músico


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