Entrevista: Carnaval de Nelas, uma tradição com mais de 40 anos interrompida

16/02/2021 18:42

2021 fica marcado no calendário do Carnaval de Nelas com uma interrupção. Uma tradição com mais de 40 anos, que este ano não saiu à rua.

O Viseunow entrevistou as responsáveis pelos dois bairros da vila, Sónia Rocha da Associação Recreativa e Cultura do Santo António – Bairro da Igreja e Maria Odília da ADRC Cimo do Povo. 

Habitualmente tínhamos a vila de Nelas repleta de pessoas para vos verem desfila, quer no domingo, quer na terça-feira de carnaval. Como é que é lidar com umas ruas silenciosas ?

Sónia Rocha (SR): Bem, é bastante difícil porque tínhamos sempre a devida azafama. Noites em claro para fazer a devida preparação, ficar sempre á espera de que não chovesse e que as ruas da vila de Nelas estivessem cheias de pessoas, com música a aguardar a nossa chegada.

Maria Odília (MD): Este ano está a ser diferente. Penso que toda a gente deve estar desanimada e triste devido à situação que estamos a passar. Não podermos fazer uma coisa que gostamos e que as pessoas também gostam de ver, é uma grande frustração.

Para nós o nosso carnaval é um marco, já são mais de 40 anos, mas infelizmente, este ano, terá de ser assim.

Sinto falta da azafama, que, por estes dias, eu e todas as pessoas que colaboravam comigo sentíamos até conseguirmos por o carnaval nas ruas. Começávamos no início de janeiro e com muito sacrifício, tentávamos dar o nosso melhor.

Este ano é um ano totalmente diferente, vocês não fizeram nenhuma iniciativa online?

SR: Colocamos cortejos antigos e algumas fotos de anos anteriores durante os nossos preparativos de carnaval. Tentámos viver um bocadinho a nossa euforia, mas é tudo tão diferente, tão insensível.

MD: No domingo, fiz questão de colocar uns fatos pendurados e pôr música à janela, na zona onde vivo, mas não vi mais ninguém colaborar com isso. Acho que as pessoas são muito individualistas, não colaboram muito, e são muito bairristas.

Como acha que será o regresso em 2022?

SR: Isso acho que toda a gente quer um regresso em grande, com muita energia, estamos todos a precisar de libertar e vai ser uma folia a dobrar. As ideias deste ano vão ser colocadas em prática no próximo ano, em dobro.

MD: Não sei, penso que, como este ano não houve festa, tenho esperança que para o próximo ano, as pessoas queiram recuperar aquilo que este ano não tiveram, é a minha esperança.

Como tem sido manter o carnaval na vila?

SR: Ao longo dos anos temos conseguido cativar pessoas mais novas, que nos trazem algumas ideias diferentes, mas não são muitos. Para desfilar temos sempre muita gente, para ajudar temos tido algumas pessoas novas, com muita vontade, com muita garra. A nível de costura têm de ser sempre pessoas mais velhas, porque com os mais novos não conseguimos fazer este tipo de trabalho.

MD: Olhe, primeiro é preciso a boa vontade das pessoas, de colaborarem nos trabalhos, de participarem no dia. E também deve haver ajuda por parte de todas as entidades locais, porque os gastos são sempre muitos e, se não for assim, nós não temos capacidade para conseguir fazer o carnaval. E no que depender de mim, farei aquilo que for possível por aquela associação. Tenho esperança de que alguém continue, não quer dizer que eu fique na direção, mas, se precisarem da minha colaboração, estarei presente. Foram anos muito bons, uns melhores que outros, mas sempre com o esforço, das poucas pessoas que trabalhavam. Fazíamos sempre aquilo que achávamos que era melhor para apresentar. Tenho a agradecer a todas as pessoas que, ao longos dos anos deram o seu contributo para esta casa.

Sento que esse esforço é valorizado pelas pessoas que assistem ao Carnaval?

MD: Sim, algumas pessoas valorizam, outras não, porque as pessoas não sabem e não conhecem todo o trabalho envolvido. Deviam pensar que quem fez, fez certamente o seu melhor.

Só espero que esta pandemia passe e que volte tudo ao normal, é esse o meu desejo.

Como é que é essa ausência de convívio nesta altura do ano?

SR: É terrível. Apesar do cansaço, do stress que temos para que chegue o dia e esteja tudo pronto, que não falte ninguém, que haja roupa para todos, que os carros estejam terminados, também existe uma parte a nível social, um convívio e colaboração de todos.

Existem grupos de trabalho que atuam durante a tarde e grupos que trabalham à noite.

Os grupos da tarde são geralmente mais as senhoras que conseguem estar por trabalharem por turnos ou estarem reformadas. Depois o grupo da noite são sempre as pessoas que trabalham durante o dia.

No fim de semana antes do carnaval, fazemos sempre um convívio onde a rainha, por norma, oferece sempre o pão de ló e o queijo. Tudo isso nos faz falta, os cheiros, os sabores, tudo nos faz falta este ano.

Para além disso, o nosso espaço da associação está dedicado ao COVID-19, e chegar ao espaço e ver tudo dividido em quarto e camas é muito difícil. Eu sei que custa muito aos outros bairros não sair com o carnaval à rua, mas o nosso consegue nos tocar um bocadinho mais, porque temos o nosso pavilhão alocado à doença. É um bocadinho mais sensível não termos o nosso espaço, para além de não podermos festejar, que é compreensível, também não termos o nosso espaço normal.

Como é que descrevia o Carnaval de Nelas para que, em 2022, quem nunca veio, possa vir?

SR: É um Carnaval vivido com muito bairrismo, com muito trabalho, com muito profissionalismo e eu convido as pessoas a virem passar um dia diferente.

Um dia em que não é um carnaval feito de escolas de samba, mas feito de alegria e de euforia, que as pessoas acumulam durante o ano, para chegar aqui no domingo e na terça-feira e desfilar e derramar toda a alegria acumulada.

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