ARTIGO DE OPINIÃO: Vão-se os anéis, ficam os segredos: uma leitura de Mau Tempo no Canal

15/02/2023 18:30

Da avó Margarida Terra, Margarida Clark Dumbo não herda apenas o nome próprio e as semelhanças físicas, mas também o anel: uma serpente cega, que testemunha (apesar da esmeralda perdida de um dos olhos) os primeiros passos – que acabam por ser igualmente os últimos – da relação amorosa da sua dona com João Garcia, de quem mais tarde a jovem foge para nunca mais se libertar. 

Ao perguntar a João Garcia se quer ver o anel, Margarida quer ser vista; ao procurar «a cabeça da serpente com o polegar comovido nos dedos de Margarida», João Garcia deseja vê-la. No entanto, o querer de um e o desejar do outro encontram-se a meio de um caminho de impossibilidades, que começa na oposição incontornável do pai de Margarida a esse namoro e termina no momento em que a jovem decide casar com André Barreto, filho do barão da Urzelina, encontrando neste enlace a conveniência do desafogo financeiro que liberta a família de dívidas e preocupações. No entanto, o casamento exige a Margarida que renuncie à sua oceânica ânsia de liberdade: «Com o hábito e um forte sentimento como o que sinto pelo André, ser uma mulher casada é ser como um daqueles veleiros que se deixavam apodrecer meses e meses na Horta, amarrados a uma boia da Doca; ou, se quisermos puxar as comparações ao trágico: como um morto que encontra a paz e a luz perpétua numa sepultura que os seus compraram e que trazem asseadinha…»

Esta estabilidade – ou estagnação – encontra representação simbólica no facto de André Barreto, por lamentar «que joia tão bonita estivesse assim desvalorizada», ter mandado consertar o velho anel que Margarida passa a usar por cima da aliança, serpente que regressa assim «com duas esmeraldas novas e com a pedrinha antiga sepulta num pouco de algodão, no estojo do pendantif de rubis e brilhantes, presente de núpcias dos sogros.» Desaparece assim a serpente que conhecera João Garcia na «mão abandonada e alta» de Margarida, desaparece assim o sonho, desaparece a energia vital da paixão – tal como a esmeralda antiga, a verdadeira, se acomoda agora num pedacinho de normal algodão. 

Margarida é a serpente, que morre ao ser restaurada. Perde a identidade, perdida a autenticidade. Quando lhe contam que João Garcia casou, faz saltar do anel «sucessiva e inexoravelmente as duas pedras», essas esmeraldas valiosas que lhe roubam o passado e a promessa do amor original, pecado só quando não é vivido, e diz ao marido que deixou cair sem querer a joia ao mar. Sim, Margarida é a serpente: «sentia-se cega… cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que àquela hora jazia, como a cucumária dos abismos, no mais secreto do mar» – e no mais escondido do seu coração.

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