Portugal enfrenta um desafio crescente no campo da saúde mental. Dados recentes apontam que cerca de um em cada três portugueses apresenta sintomas de ansiedade, burnout ou depressão, um número que tem vindo a aumentar nos últimos anos. Apesar disso, a saúde mental continua a ser um tema muitas vezes subestimado ou esquecido, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. Mas afinal, como se reflete esta realidade no distrito de Viseu?
À primeira vista, a região de Viseu pode parecer afastada do ritmo acelerado e da pressão típica das grandes cidades do litoral. No entanto, essa perceção nem sempre corresponde à realidade. Por aqui, enfrentamos desafios próprios, como o envelhecimento da população, o isolamento social, o menor acesso a serviços especializados e, em muitos casos, uma maior dificuldade em procurar ajuda. Estes fatores também contribuem para que o nível de sofrimento psicológico seja idêntico ao resto do país, ainda que nem sempre seja visível.
Um dos dados mais preocupantes não é apenas o número de pessoas afetadas, mas o facto de muitas não procurarem apoio. Entre os principais obstáculos estão o estigma associado à saúde mental, nomeadamente como “só vai ao psicólogo quem é maluco”, a falta de informação e as dificuldades no acesso a cuidados especializados. A estes fatores junta-se ainda a menor propensão ao investimento financeiro das famílias na saúde mental, muitas vezes associada a rendimentos mais baixos, o que acaba por adiar ou impedir a procura de acompanhamento. Em concelhos mais pequenos, como muitos dos que compõem o distrito de Viseu, o receio do julgamento social acaba também por ter um peso ainda maior. Falar sobre saúde mental continua, para muitos, a ser um tabu.
Ainda assim, os sinais existem e não devem ser ignorados. Ansiedade ou tristeza persistente, dificuldade em dormir, cansaço emocional ou sensação constante de sobrecarga são algumas das manifestações mais comuns. Muitas vezes, estes sintomas são desvalorizados ou confundidos com o desgaste normal do dia a dia. Quando se prolongam no tempo, podem afetar de forma significativa a qualidade de vida, as relações pessoais e o desempenho profissional. Reconhecer estes sinais é um passo essencial, ainda que nem sempre seja fácil.
A resposta aos problemas de saúde mental no interior continua a ser uma questão central. Em Viseu, como em todo o país, temos um serviço público neste domínio claramente deficitário, sendo que o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico pode implicar longos tempos de espera e de deslocações. Em virtude disso uma marcação de Psiquiatria ou Psicologia no chamado Hospital Psiquiátrico de Abraveses demora longos meses, com consultas a correr e espaçamento entre consultas que não são condizentes com as boas práticas clínicas. Este cenário reforça a importância de investir não apenas em tratamento, mas também em prevenção, literacia e proximidade dos serviços, garantindo que o apoio chega efetivamente a quem dele necessita.
Parte desta resposta poderia também passar pela articulação com a oferta privada, já presente em todo o país, incluindo o distrito de Viseu. A criação de um cheque-psicólogo, à semelhança do modelo já aplicado aos estudantes do ensino superior, ou do cheque-dentista para os menores, seria uma resposta adequada e quase isenta de custos para o Estado, em virtude das receitas associadas ao aumento de dias de trabalho e à diminuição do pagamento de baixas.
A saúde mental faz parte da saúde, mas ainda não é tratada como tal por todos. Num contexto em que os números continuam a crescer, torna-se essencial quebrar este silêncio, normalizar a conversa e incentivar a procura de apoio. Reconhecer que não estamos bem não é um sinal de fraqueza, mas sim um passo consciente em direção ao equilíbrio.
Se um em cada três portugueses enfrenta dificuldades psicológicas, então esta é uma realidade que nos toca a todos, direta ou indiretamente. Em Viseu, como no resto do país, o desafio passa por tornar o invisível mais visível, o silêncio em diálogo e a preocupação em ação. A questão mantém-se: estamos, de facto, a dar à saúde mental a atenção que merece?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
www.davidalmeida.pt
965800042















