Vai para mais de um ano que a pandemia se abateu sobre este rectângulo do extremo mais ocidental da Europa, não poupando mais de 17.000 vidas, ceifadas, sem culpa formada.
Não sendo ainda hora do balanço final, já é tempo de se identificarem falhanços. É bom que saibamos que falhámos todos, sem excepções, do Estado aos cidadãos.
Falhou o Estado, no instante inicial, duvidando que a peste cá chegasse, desvalorizando, mais tarde, os efeitos mortais, garantindo o que não podia prometer, com ministros desautorizando colegas, numa gestão errática e casuística, reactiva e muito pouco preventiva. Melhorou um pouco quando os anéis já estavam no prego e estava o lume a chegar aos dedos. Mas, irritantemente, cantando vitória e escarnecendo dos críticos.
Falhou o SNS que, por falta de recursos técnicos e humanos, vítima de cortes financeiros cegos e execução orçamental apertada, quase colapsou, deixando lixo e misérias à mostra.
Falhou a DGS que, esquiva, foi dando instruções, ao mesmo tempo que recuava nas indicações, foi debitando obrigações, para depois minimizar os deveres, sucumbindo às pressões dos poderes autárquicos e desportivos. Ficou quase sempre no meio da ponte.
Falharam os lares e centros de dia, impreparados para uma resposta pronta e eficaz a idosos vulneráveis e frágeis, encarcerados entre quatro paredes, separados do mundo familiar, o fio quebradiço que, ainda assim, os mantinha vivos.
Falharam os centros de saúde que, a partir de certa altura, fechados num casulo, bloquearam os circuitos de informação, impedindo o controle devido dos contagiados e o seu exigido confinamento, uma forma eficaz de cortar as cadeias de transmissão.
Falharam as instâncias desportivas nacionais que aceitaram realizar em território nacional competições que outros países, mais avisados e menos ajeitados a vaidades vãs e pategas, rejeitaram, borrifando-se para o “show off”, que tanto compraz quem governa.
Falhámos nós. Todos nós, uns por acção, outros por omissão. À mínima abertura, saltámos para a rua, juntámos os queixos e dançámos ao sol e à luz, tanto faz, enquanto a cerveja escorria, refrescando os corpos. Os portugueses não são, naturalmente, disciplinados, são medrosos, mais dados ao receio do que ao respeito.
Por fim, a verdade que dói: Portugal não está preparado para responder a catástrofes naturais, tecnológicas ou sanitárias. Foi assim com Alcafache, a tragédia de Entre-os-Rios, os incêndios de 2017, agora com a Covid. A bem da segurança, que não se venda gato por lebre. É o mínimo que um governo pode fazer pelos cidadãos. Alertá-los para as fragilidades em que assenta o sistema de protecção e socorro. Dizer o contrário, é história da carochinha para entreter o povo e pô-lo remansado a dormir sob o lençol da mentira.
















