Portugal encontra-se entre os países da OCDE com maior consumo diário de antidepressivos, com cerca de 15% da população a recorrer a esta medicação de forma regular. Estes números refletem uma realidade que tem vindo a crescer de forma consistente nos últimos anos e levantam uma questão importante: o aumento do consumo significa também um aumento da recuperação em saúde mental?
Mais preocupante ainda é o facto de, em muitos casos, esta medicação ser utilizada durante períodos prolongados. Na minha prática clínica em Tondela e Viseu, não são raras as situações em que pessoas referem estar há 5, 10, 15 ou até 20 anos em tratamento farmacológico, sem terem tido acompanhamento psicológico consistente.
A medicação pode ser essencial, necessária e, em muitos casos, salvar vidas. Mas, ainda assim, levanta uma reflexão importante sobre a forma como estamos a responder ao sofrimento psicológico.
A medicação tem um papel fundamental no controlo de sintomas como ansiedade intensa, depressão ou insónia. No entanto, não atua diretamente sobre as causas do sofrimento, como experiências traumáticas, padrões emocionais repetidos, dificuldades relacionais ou problemas na regulação emocional. Ou seja, pode ajudar a estabilizar a pessoa, mas nem sempre permite compreender ou transformar aquilo que está na origem do problema.
É aqui que entra a psicoterapia. O trabalho psicológico permite ir além do sintoma e compreender o funcionamento interno da pessoa, a sua história e a forma como interpreta e vive as suas experiências. Na prática clínica, a combinação entre psicoterapia e medicação, quando necessária, está frequentemente associada aos melhores resultados.
No distrito de Viseu, esta realidade também se faz sentir. Persistem dificuldades no acesso a consultas especializadas, sobretudo no serviço público, onde os tempos de espera podem ser longos e a continuidade de acompanhamento nem sempre é garantida. E em territórios mais periféricos ou de menor densidade populacional, estes constrangimentos tendem a ser ainda mais evidentes.
Ao mesmo tempo, observa-se uma realidade muitas vezes silenciosa: muitas pessoas acabam por normalizar o seu sofrimento ao longo dos anos. Ansiedade persistente, cansaço emocional, falta de motivação ou sensação de “estar em esforço constante” tornam-se parte do quotidiano, sem que exista procura ativa de ajuda.
Quando essa ajuda acontece, muitas vezes já é tardia ou centrada apenas no controlo dos sintomas.
Este cenário reforça a importância de uma abordagem mais integrada à saúde mental. Não se trata de colocar em causa a medicação, mas de reconhecer que, isoladamente, pode não ser suficiente em situações mais complexas ou prolongadas.
Em Viseu, tal como no resto do país, este é um desafio que atravessa diferentes idades e contextos. Desde jovens adultos em pressão académica ou profissional até populações mais envelhecidas, onde o isolamento e a solidão têm um peso significativo, o sofrimento psicológico assume várias formas.
A questão central não é apenas quantas pessoas estão a ser medicadas, mas sim se estão a ter acesso a uma intervenção que vá à origem do seu sofrimento. Porque aliviar sintomas é importante. Mas compreender o que está por trás deles pode ser verdadeiramente transformador.
No fundo, a pergunta mantém-se atual e necessária: estamos a tratar a causa do sofrimento psicológico… ou apenas a aprender a viver com ele?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
965800042
















