ARTIGO DE OPINIÃO: O valor da cultura e o preço da ignorância

17/07/2025 18:27

Aquela que é, para Antero, a função do Poeta – acordar as consciências como responsabilidade cívica – é também, para Eça, o papel do Jornalista, o que não o impede, a par da sua valorização, de sobre ele – e sobre os jornais – lançar o seu olhar crítico e mordaz, a que não será alheio o facto de ter sido correspondente internacional.

Em Os Maias, por exemplo, não só os jornais surgem como objeto – e, nessa medida, evidência do quotidiano que pode servir para caracterizar determinada personagem ou cenário (recordemos a presença do Figaro ou do Times nos Paços de Celas, leituras que contribuem para desenhar o perfil dos seus frequentadores) – como também surgem como motivo de crítica, denunciando os periódicos ou a imprensa como instrumento de corrupção ao serviço de interesses pessoais e não do dever da informação rigorosa. Basta pensar no episódio da Corneta do Diabo e na tentativa de denegrir a imagem de Carlos ou no jornal A Tarde, girando ao sabor das conveniências políticas e do proveito que desses favores nasce.

Ora desta atitude crítica se conclui a tentativa de restabelecimento do papel pedagógico, cultural e cívico da imprensa; através da caricatura e da ironia, Eça, se faz o retrato de uma sociedade ética e moralmente decadente, pretende também – e sobretudo – contribuir para a recuperação do verdadeiro jornalismo – aquele que está ao serviço da verdade, da cultura e da cidadania, aquele que pratica a isenção e não o ataque pessoal ou a bajulação, aquele que, consciente do seu poder na formação da opinião pública, não cede à manipulação o lugar da imparcialidade, aquele que procura, com o rigor da informação que divulga, contribuir para o fortalecimento da transparência e da confiança no seu trabalho.

Quando um jornal de referência no domínio das letras e da cultura é notícia por apresentar o seu próximo número como podendo ser o último, temos obrigatoriamente de pensar nas razões que motivarão esse desfecho e, sobretudo, no significado e nos efeitos desse desaparecimento; se percebermos que o preço que teremos a pagar pela sua ausência é muito mais elevado do que a sua compra ou assinatura, talvez ainda cheguemos a tempo de impedir a sua morte anunciada.

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