A Maior Flor do Mundo, de Saramago, é uma história sobre histórias para crianças, ou melhor, sobre escrever histórias para crianças. Pelo meio, está disfarçada de história para crianças e, nessa condição, fala sobre um menino e uma flor, mas isso é só porque é preciso apresentar uma razão para se pensar sobre a forma de escrever histórias para os mais novos. Sem matéria, não há forma. Assim, o narrador começa por dizer que «As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas.», afirmação de que se serve para dizer logo a seguir que é incapaz de «saber escrever essas histórias», quer por não «saber escolher as palavras» quer por não ter jeito para contar e lhe faltar também a paciência.
Então, o narrador, através da escrita, fala de uma história que gostaria de ter escrito e não escreveu – até porque não tem as qualidades que lho permitiriam – como se a palavra escrita a que recorre agora não servisse para escrever a história, mas apenas para a contar. A palavra escrita conta a história que não foi – e não está a ser, para todos os efeitos – escrita. Deste modo, temos de considerar a palavra da história (não) escrita – que não esteve ao alcance do narrador – e a palavra (não) escrita da história – que, ao alcance do narrador, fica aquém da história.
Nas suas palavras finais, o narrador volta à ideia de que não sabe escrever para crianças: «Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para as crianças…»
Em conclusão, o narrador conta uma história que não escreveu, pelo que se percebe que contar não é o mesmo que escrever, ainda que se conte através da escrita. Ao assumir-se como contador de histórias, o narrador inscreve-se no domínio da oralidade, o que significa que as suas palavras escritas não contam como escrita; tal como Pessoa pensa a escrita de Alberto Caeiro para parecer que não foi pensada, Saramago, aproximando-se dos textos de tradição oral, pensa a escrita para parecer que é falada. Nesta medida, as suas palavras não são para ser lidas, mas sim ouvidas, o que pede ao leitor que dê o passo seguinte: do que é lido, ser ouvinte.










