ARTIGO DE OPINIÃO: O CAOS HORMONAL

11/09/2025 17:49

No palco da adolescência, o caos hormonal é o ator mais indisciplinado que já conheci. Entra sem marcação, esquece o texto, exagera no gesto. Há dias em que transforma a cena numa comédia tresloucada; noutros, num drama sufocante. Como encenador, observo que esse turbilhão interno não é defeito do espetáculo — é a sua matéria-prima. Quando trabalho com jovens, percebo que a arte teatral não serve apenas para mostrar uma história, mas para dar corpo às tempestades que eles carregam. O palco oferece-lhes um lugar seguro para gritar sem medo, chorar sem julgamento e rir sem explicação. Cada improviso é uma válvula de escape; cada ensaio, uma tentativa de domar a própria confusão. A cena torna-se então um espelho onde o adolescente se vê, mas também um laboratório onde pode experimentar ser outro. Ao vestir uma personagem, descobre que a sua própria desordem pode ser traduzida em gesto, palavra ou silêncio. É nesse instante que o caos hormonal deixa de ser um inimigo invisível e passa a ser energia criativa.

Como encenador, sinto que o maior desafio não é corrigir a turbulência, mas valorizá-la. Dar-lhe espaço, ritmo e sentido. A adolescência, afinal, não é uma peça por encenar: é um espetáculo em constante ensaio. E talvez o papel da arte (e do teatro em especial) seja mostrar a estes jovens que, mesmo no auge da desordem, eles podem ser autores da sua própria cena.

ANTÓNIO LEAL

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