ARTIGO DE OPINIÃO: O arroz do Baixo Vouga Lagunar

25/11/2025 18:30

À boleia da sétima paragem da Exposição Itinerante de Fotografia “Sabores e Tradições: Confrarias em imagens”, uma iniciativa da Confraria de Sabores Portugueses no Luxemburgo, a Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões viajou ao longo do Rio Vouga, até desaguar no Baixo Vouga Lagunar.

Fazendo o pleno em todas as etapas que esta exposição tem percorrido de norte a sul do país, até porque a região lafonense está intimamente ligada a este projeto, desta vez a viagem confrádica do dia 15 de Novembro foi até Estarreja, mais concretamente ao Museu Fábrica da História – Arroz, para a inauguração desta mostra que reúne um conjunto de registos fotográficos que documentam a atividade de várias confrarias gastronómicas e culturais, revelando os seus trajes, cerimónias e expressões de identidade regional.

Cada local por onde já passou a exposição tem a sua história e as salas que a acolheram têm a sua especificidade, mas esta paragem sob a organização da Confraria do Cultivo de Arroz de Estarreja tem um condão especial, pois trata-se de uma jovem confraria, fundada em 2024, não se tratando propriamente de uma Confraria Gastronómica, pois o principal objetivo é perpetuar e promover o cultivo do arroz, mas, claro, um ingrediente que acaba por estar estreitamente ligado à gastronomia.

O condão especial vem de duas vertentes, sendo uma jovem confraria soube cuidar de todos os pormenores que uma inauguração de sucesso tem de ter e de facto isso aconteceu, ao ponto de que o momento de confraternização entre os confrades visitados e os confrades visitantes, bem como as entidades municipais e das Casas Regionais, pessoas ligadas à região e ao cultivo do arroz, foi amplamente alargado muito para além do horário de encerramento do Museu.

A outra vertente tem a ver com o espaço que acolhe esta sétima mostra, pois trata-se de um local repleto de história, que remonta a 1922, mas que foi recentemente reconvertido, em Setembro de 2024, no Museu Fábrica da História – Arroz. Um local que ao longo dos seus pisos tem um espaço expositivo amplo na sua recepção, onde se encontra esta exposição itinerante, e nos pisos superiores cada recanto conta a história da “Hidro-Eléctrica” de Estarreja – Fábrica de Descasque de Arroz.

A experiência sensorial, sonora e visual da visita ao museu é inexplicável por palavras, até porque o visitante pode usufruir do “percurso sonoro e emotivo” e a dada altura a experiência torna-se inebriante dos sentidos, levando a que as memórias vivas da vida do quotidiana da fábrica parece que nos teletransporta para o passado.

Outra particularidade que torna apelativa a visita a esta exposição e ao museu em si, é que apesar do edifício ser centenário o seu interior está devidamente equilibrado entre o que de mais moderno se pode encontrar numa reconversão nesta década do século XXI com o devido respeito pelas linhas mestras de como era a fábrica.

Durante a visita guiada ao museu, algo ficou gravado na memória e que nunca é demais lembrar, ou para quem não tem a noção, é que a tarefa no terreno era extremamente dura e feita por mulheres: Imaginem passar longas horas com água pelos joelhos, descalças, sempre de costas debruçadas e sujeitas a toda a espécie de seres vivos que têm o seu habitat nessas águas, por exemplo as sanguessugas…

Por incrível que pareça, durante as longas horas da jornada de trabalho em vez de lamentações o que se ouvia era o falar da vida quotidiana (ou o facebook da altura) e eram as canções, das quais fazem também parte da história do museu.

Por isso mesmo, apesar de o arroz ser cultivado há mais de 12.000 anos, sendo a terceira maior cultura cerealífera do mundo, apenas ultrapassada pelas de milho e trigo, e dos alimentos mais consumidos em todo o mundo, nem sempre se dá o devido valor ao trabalho e sacrifício que houve até estar presente no nosso prato e ser o nosso alimento.

Não é à toa que na cultura asiática, como é o caso da cultura japonesa, que associam o arroz como símbolo associado à humildade ou à gratidão pela terra e pelos agricultores e no Budismo é um alimento sagrado.

Segundo dados de 2022, a produção mundial de arroz atingiu o número astronómico de 1.335.874.462 milhões de toneladas. Em Portugal os números rondam 1.250 mil toneladas por ano, significando um consumo médio de 15 quilos, per capita, por ano.

Resumindo, o arroz dá para muitos fins até para dá para incluir em expressões do quotidiano. Quem nunca usou um “já te dou o arroz”, “isso é feijão-com-arroz”, “outra vez arroz?”, ou um “és um arroz de festa”.

Resta acrescentar que a exposição está patente até 27 de Novembro e a próxima paragem está agendada com inauguração para 6 de Dezembro, em Gouveia.

E desejar um bom Advento e boas festas para a quadra que se avizinha, em que podem aproveitar para fazer arroz doce.

Aníbal Santos

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