ARTIGO DE OPINIÃO: Luz própria

18/06/2023 18:38

No dia 6 de junho, o “The New York Times” anunciou a morte de Françoise Gilot: “Françoise Gilot, artista na Sombra de Picasso, morreu aos 101 anos”.

Confesso que fiquei incrédula com a palavra utilizada…Sombra? Como é que alguém que brilha com luz própria pode ser designada como Sombra? Como é que alguém cujo percurso artístico é tão interessante e preenchido pode ser meramente lembrada como a sombra de um homem com quem se relacionou há 70 anos? Uma artista que faz um percurso extraordinário ao longo de oitenta anos, para mim é evidente que deve ser recordada pelo seu nome e pela sua obra, não por ter sido mulher, ou amante, de alguém.

A sua independência em termos criativos fez com que a sua pintura desenvolvesse características próprias e singulares, de tal modo que atualmente algumas das sua obras estão expostas no The Metropolitan Museum of Art e no Museum of Modern Art em Nova York e no Centre Pompidou de Paris. Destas obras destacam-se a pintura “Paloma at the Guitar” (1965), um retrato em tons de azul de sua filha, “Blue Study” (1953), uma foto de uma mulher sentada e “Living Forest” (1977), já num registo mais abstrato. No entanto a sua obra mais conhecida é literária. Em 1964 publica: “Life With Picasso”, uma auto-biografia onde procura fazer uma reflexão sobre a sua vida intensa e criativa, sobre a sua procura constante em se tornar independente na sua pintura e onde aborda, inevitavelmente, a sua relação de dez anos com um dos maiores nomes da arte mundial. A publicação deste livro fez com que Picasso cortasse definitivamente relações com ela e com os filhos de ambos: Claude e Paloma Picasso.

Françoise Gilot, deve ser recordada com uma mulher persistente, convicta, com sonhos pelos quais soube lutar. Há alguns anos, numa entrevista a artista recordou o momento em ela própria anteviu o seu futuro: num passeio aos Alpes com a família, tinha apenas cinco anos, refere que ficou absolutamente fascinada com os prados verdejantes que faziam contraste com o verde escuro da floresta. Perguntou ao pai se ele conseguia ver a mesma coisa que ela. O pai achando ridícula aquela questão respondeu-lhe dizendo que a retina era igual em toda a gente. Ela retorquiu dizendo: sim pai a retina é igual, mas a imaginação não.

Françoise Giltot, definitivamente, uma artista com luz própria.

“Paloma at the Guitar” (1965)

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