ARTIGO DE OPINIÃO: Livros em exposição

16/04/2026 18:23

Bom, «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», disse o Poeta. Quanto aos tempos, sabemos que nada há a fazer. Mudam de um dia para o outro. No entanto, quanto às vontades, sobretudo se disserem respeito à leitura, não tem havido grandes mudanças. Ainda que os tempos sejam outros, a vontade de ler não é coisa que aflija muita gente, esperemos que nunca nos aconteça a aflição de querermos ler à vontade e não podermos. O problema é ainda mais curioso se pensarmos que as pessoas não sentem vontade de ler, mas têm vontade de mostrar que leem.

É claro que, como acontece nas generalizações, paga o justo pelo pecador, neste caso pagará o leitor pelo não leitor, mas estamos chegados ao ponto de usar o livro – não só como pisa-papéis, bibelot ou elemento decorativo que fica sempre bem em qualquer divisão, ainda que fora do campeonato – mas como requintado acessório de moda, enquanto a moda de ler continua a não pegar ou a não se pegar.

Quando adoecemos, é porque alguém nos pegou a gripe ou outra doença qualquer, e não tivemos como escapar, mas a febre de ler já ninguém apanha, era o que faltava, já bem basta o resto, não precisamos de livros que nos deem cabo da cabeça. Ora esta imunidade à leitura faz que possamos frequentar ambientes digitais em que o livro desfila numa espécie de passerelle intelectual para ser admirado como objeto – naturalmente – sem corrermos o risco de passarmos da capa. Estamos na época do livro instagramável, aquele que combina com a estante, com a camisola e com a cor dos óculos, aquele de que alguém fala sem lhe darmos voz, sem querermos saber se aquilo que dele dizem é o que nos poderia ou quereria a nós. Agora, lemos de ouvido. Não seria mau, se passássemos depois à segunda fase: ler sem ruído, ler para crer, ler para contar a história, não para contar os volumes.

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