ARTIGO DE OPINIÃO: Elegia de outono

22/10/2025 18:30

Voltaram as chuvas.

Gosto de ficar encostada ao vidro da janela, a olhar as árvores trémulas sob as primeiras chuvas de outono. É noite. 

Depois de um dia de trabalho extenuante, num início de ano letivo com outras turmas, alunos tão diferentes uns dos outros, uma experiência nova com adultos estrangeiros,que procuram Portugal como país de acolhimento, muitas reuniões, um projeto camoniano, a desenvolver com a Biblioteca escolar, e aulas de apoio a alunos com dificuldades específicas, sabe-me bem absorver esta paz silenciosa da casa, entrecortada com o barulho da chuva na vidraça. 

Carros, muito poucos, passam na estrada defronte. Alguns cães dão os seus últimos passeios com os donos pelas ruas. A cidade vai adormecendo lentamente.

Desligo as luzes do meu quarto. Basta-me a claridade exterior e as sombras que oscilam com o vento.

Mergulho em pensamentos distantes. Tão distantes. De outros tempos, de outros outonos. Seguia com outras crianças pelo caminho de terra batida em direção à escola,que distava dois quilómetros, na vila. Adorávamos pisar, com força, as folhas amareladas, caídas das árvores altas. Aquele barulho continua a ecoar dentro de mim, em cada outono. E mistura-se o som da chuva de agora com o barulho das folhas secas sob os meus pés de menina. Intersecionismo pessoano, diz a professora de literatura que há em mim. Chegam-me versos de «Chuva oblíqua», um dos meus poemas favoritos,que lia com os meus alunos nos meus primeiros anos de professora. Era outubro. Passaram mais de quarenta.

O tempo que passou pouco importa. Através da memória, evado-me deste cansaço hostil do presente. Construo imagens que deambulam através de tempos. Uns atrás dos outros. Num filme, num caleidoscópio de emoções. Nostalgia, talvez! Jamais desencanto. Cansaço sim. Não disto nem daquilo, Álvaro de Campos, simplesmente um cansaço muito físico, no corpo, que acentua sinais de fragilidade desta nossa condição de «bichos da terra tão pequenos». Camões, o meu poeta. Sempre. Até ao fim. Sim, também com Vergílio Ferreira e aquele seu romance que li com outros dos meus milhares de alunos, numa outra escola, a primeira.

Vou encontrando alguns deles nestes caminhos da vida. Uns sorriem-me de perto. Outros ainda sabem o meu nome. De alguns já não sei o nome. Foram tantos. Hoje, os nomes são outros. Alguns, muito poucos mesmo, fingem que não me veem. Vão apressados, eu sei.

Lembro muitos deles, a sua caligrafia, os seus textos no jornal da escola, das escolas. Lembro as apresentações de livros lidos, de trabalhos de pesquisa feitos, de festasescolares, de viagens, muitas, de estudo.

Volto ao presente. Vou preparar a mochila para amanhã. Estarei de novo, depois do eterno toque da campainha, a abrir a porta de mais uma sala de aulas. A ligar o computador, a fazer a chamada, a olhar com atenção para cada um deles, para que a minha memória retenha os seus rostos, os seus nomes, os seus traços. Voltarei a pegar no livro. Lerei, em voz alta, uma cantiga de amor medieval. Deambularei pela sala com o livro aberto, fazendo perguntas. Esquecerei os óculos sobre as mesas. Esquecerei as canetas com que escrevo no quadro, esquecerei o que me espera fora daquela porta e voltarei a ser a professora. Mais velha sim, mas não menos professora! 

É outubro. Outono, também na vida.

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