O receio de que os ventos da modernidade corrompessem os valores morais do povo português, aliado aos ventos de leste que trouxeram ideias comunistas ao meu pai fizeram com que não me fosse permitido beber Coca-cola até ao início dos anos oitenta. Quando finalmente fui autorizada a beber, fiquei absolutamente rendida ao sabor único daquela bebida que sabia a liberdade, cheirava a mudança e borbulhava de forma agradavelmente estranha na boca. O 25 de abril de 1974 trouxe muitas mudanças, mudanças essas que se foram consolidando nos anos seguintes, final dos anos setenta e oitenta. Anos em que a minha geração começou a despertar para a vida, começando a ter alguma consciência do seu lugar no mundo. Nesses anos, princípios de oitenta, tudo era novidade: a televisão a cores, os grupos musicais, os telediscos, as roupas modernas, os filmes, … enfim, era uma imensidão de coisas novas e possibilidades, que nos faziam duvidar que algum dia tivéssemos vivido em ditadura.
De facto, foram muitas as mudanças, o desenvolvimento do nosso país foi imenso. Aos poucos Portugal começou a abrir-se para o mundo, deixámos de estar orgulhosamente sós, a sociedade foi-se adaptando e assimilando a informação que vinha de fora. O acesso à cultura e ao conhecimento também foi uma realidade. Na saúde, a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979, foi determinante, assegurando o acesso de todos a este sistema. Na educação, foram também grandes as mudanças, se por um lado o analfabetismo caiu consideravelmente, a possibilidade de partilha do conhecimento e da informação foi crescendo à medida que os anos passaram. E se nos dias de hoje temos plena consciência que a educação, a saúde, a justiça são alguns dos pilares fundamentais numa sociedade democrática é difícil aceitarmos que não se definam estratégias claras e reformas estruturais que melhorem o seu funcionamento… mas isso é outra história!…
Em 49 anos muito mudou, os anos passaram e apesar de eu ter nascido ainda durante a ditadura, cresci de mão dada com a Liberdade e se hoje não me tornei a mulher perfeita, se não sou a perfeita dona de casa, dependente da autorização do meu marido para viajar, se tenho liberdade para escrever, ter opiniões e ser crítica em relação ao que me rodeia, devo aos Homens e Mulheres que lutaram porque acreditaram que Portugal poderia ser um país livre e onde, entre muitas outras conquistas, se poderia beber Coca-cola.
















