Comecemos talvez por aqui, por Eduardo Prado Coelho (1944/2007), que assinou um nutrido texto, publicado em 2009, sobre a importância de se ler um clássico. Sem peias, tratava o leitor por hipócrita, por se recusar a fazê-lo, em face do argumento de que tais autores eram muito aborrecidos. E, relevava tais leituras porque “já não sabemos muito bem donde vimos e para onde vamos”. O texto em apreço era o Prefácio a Jacques, o Fatalista, de Denis Diderot (1713/1784). Um clássico escrito para a eternidade, e lá está, sempre coevo. EPC, aludia ainda aos avisos deixados, no mesmo sentido, por Ítalo Calvino (1923/1985) no seu incontornável Porquê Ler os Clássicos? (2002), onde o grande escritor e jornalista italiano, deixava o recado “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”. Caro leitor! digo agora eu, não deixe de ler estes dois textos para perceber a importância dos clássicos neste hodierno horribilis, onde o jogo do mundo privilegia a ignorância. Só seremos verdadeiramente livres fora dessa ignorância e da ilusão. E, não esqueça: um autor ajuda a viver. Vem isto a propósito da Ode a Viriato -Poema épico (2025) que Carlos Almeida escreve, para exortar Viriato e a sua gesta de liberdade. Aliás, já em 2013, havia recorrido a semelhante registo literário, no seu interessante Ode à Cidade de Viseu (2013), cartografia sentimental e apaixonada da nossa cidade, que qualquer viseense devia ler. As odes são cantos que podem ser cívicas (exaltação aos cidadãos), pastoris (encantos da vida rustica) e amorosas. É um reconhecido padrão de desenvolvimento das bases da literatura europeia, que na sua linhagem horaciana muito determinou. Tem cultores como Fernando Pessoa, Antero Quental. Hoje, numa linguagem e narrativa mais refrescada, encontra-se David Mourão-Ferreira, ou em Gonçalo M Tavares (Viagem à India), entre outros. Carlos Almeida, sem exagero, é um dos mais importantes animador e divulgador cultural da nossa terra, e autor profícuo em áreas como a literatura (21 títulos publicados), a pintura, o cartoon, a banda desenhada, a gastronomia. Nesta Ode a Viriato, assinala a epopeia de viriato no combate a Roma, o seu sangue, a raiz telúrica da Terra que o viu nascer, viver e lutar: «Irmãos dos fraguedos e rebanhos, / do ventre da serra fui parido, / de entre os pastores fui preferido / eleito para desígnios tamanhos». Mas, interessante também evidenciar é que Carlos Almeida, escreve dentro do seu livro um outro livro, uma apaixonante história de amor, que encontra inspiração no Olhar, bela intertextualidade do poeta Eugénio de Andrade: «Como saber de que matéria / é feito o olhar?» (O Peso da Sombra, 1982). Assim, nesta diegese, da Ode a Viriato, amorosa, podemos encontrar versos tão belos como estes: «olhos guardados no coração dos teus»; «os olhos meus manchados de tortura»; o olhar cativo de uma esperança»; «nos olhos o ardor da liberdade». Uma história de paixão que pretende que o herói não seja obliterado, dando-lhe sábia conotação humana. E o futuro: «lutamos pelas terras cultivadas / semeadas de sorriso de criança, / voltar aos tempos dados à bonança / as mãos de todo o sangue enfim lavadas».














