ARTIGO DE OPINIÃO: O som e a imagem ao serviço da Mensagem

17/08/2023 12:39

A verdade é que uma palavra puxa outra e logo atrás vem outra e outra já está à espera, não me parece bem que sejam como as cerejas, até porque estas costumam só vir aos pares, mas como as ondas do mar, que não precisam de ser colhidas, ainda que possam ser lavradas. É assim que, levados pela corrente – deixemos agora as literárias, que de pouco servem, nesta matéria como noutras – desviamos a memória das Ondas do mar de Vigo para olharmos para o Mar Português, que bastou um Pessoa para nos pôr na cabeça estas associações. Até podíamos dizer que mais valia o homem ter estado sossegado, mas na verdade até esteve, porque atrás do balcão nem tinha muito espaço, e o problema foi mesmo esse – arranjou espaço por dentro e desassossego à larga, tão à larga que nem esse o assumiu, nada como dizer as coisas e pô-las no nome de outro. Enfim. 

Olhando para o poema Mar Português, percebemos a estrutura circular da primeira estrofe: as suas primeiras duas palavras – «Ó mar» – são também as suas duas últimas. Esta circularidade poderá representar o próprio mar – ou a inteira esfera terrestre – enriquecendo a mensagem do texto com uma perspetiva visual cujo simbolismo se prende com a importância das navegações portuguesas para que «a terra fosse toda uma,/que o mar unisse, já não separasse.» (texto O Infante).

Também dessa perspetiva visual beneficia o verso «Deus ao mar o perigo e o abismo deu»; não só é o verso mais longo, o que lhe confere de imediato um destaque gráfico, como transmite a imagem de afunilamento gradual, partindo dos elementos mais amplos – «Deus» e «mar» (por isso a anteposição do complemento indireto relativamente ao direto) – para os mais fechados – «perigo» e «abismo». Na verdade, se o verso optasse pela formulação sintática mais típica em português – Deus deu o perigo e o abismo ao mar – o resultado não seria de fechamento, mas de amplitude, não só por responsabilidade do significado de «mar» como por efeito da vogal aberta que na palavra consta (mar), ao contrário do que acontece com a forma verbal «deu», cujo som é fechado. Assim, à perspetiva visual acresce a perspetiva fonética, colaborando ambas para a reforçar a ideia de abismo: olhamos deste modo para o verso como se fosse um triângulo invertido (Deus – mar – deu), acentuando quer a ideia de profundidade quer a de fechamento. Daqui resulta, naturalmente, maior valorização da audácia dos portugueses, até porque – fazendo eco da sabedoria popular – «Nem todo o abismo tem parapeito».


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