Este tema é ao mesmo tempo interessante, pelo que permite compreender parte da psicologia humana, porém, é extraordinariamente difícil chegar a conclusões muito nítidas, uma vez que há poucas coisas simultaneamente tão complexas e variáveis como a realidade das relações dos casais.
As relações amorosas são uma odisseia ousada e aventureira. Os seus caminhos mais encantadores estão repletos de felicidade, riso, calor, amizade, paz, paixão e a calma que vem com um vínculo estável e seguro. E quando nos aventuramos em locais mais problemáticos e desafiadores, deparamo-nos com obstáculos com riscos, dores emocionais, conflitos internos, incerteza e ansiedade.
As relações envolvem uma calibração cuidadosa. Basta pensar no ajuste fino que nós, seres humanos, nos propomos a realizar enquanto nos esforçamos para construir e manter a intimidade emocional com um parceiro romântico. Há um equilíbrio a ser alcançado no que fazemos com os nossos sentimentos. Por um lado, quando amamos alguém de coração aberto, as emoções que experienciamos podem ser bastante poderosas. Mas por outro lado, e isto aplica-se particularmente às emoções mais desconfortáveis, temos de encontrar uma forma de responder a esses sentimentos para que não nos dominem e não assumam o comando das nossas decisões. Também procuramos caminhar na linha entre permitirmo-nos tornar extremamente próximos, à medida que cultivamos um sentimento de unidade com o nosso parceiro, e manter-nos firmemente no nosso sentido de identidade separado, à medida que continuamos a ser uma pessoa independente. E é complicado alcançar este equilíbrio, que também é referido na literatura como a “diferenciação do self”.
Posto isto, não podemos falar de relações amorosas sem falar sobre fatores internos de cada pessoa que expliquem esta ligação ao outro e a nós próprios e aqui entra a teoria da vinculação de John Bowlby (1982), que encontra várias ligações na forma como nos ligamos aos nossos pais ou outras figuras importantes nos primeiros anos de vida e a forma como nos ligamos em idade adulta aos nossos parceiros românticos.
Até aos dias de hoje, o psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby é conhecido como o pai da Teoria da Vinculação juntamente a psicóloga norte-americana Mary Ainsworth. Bowlby acreditava que os primeiros laços formados pelas crianças com os seus cuidadores têm um impacto tremendo que permanece ao longo da vida. Ele sugeriu que este vínculo também serve para manter a criança perto da mãe, melhorando assim as suas hipóteses de sobrevivência. Do ponto de vista evolutivo, os bebés que estavam biologicamente predispostos a permanecer perto das suas mães tinham menos probabilidades de serem mortos por predadores, e foi por esta razão que Bowlby se referiu à proteção contra predadores como a “função biológica” do comportamento de vinculação. Bowlby considerava os bebés como predispostos especialmente para procurar as suas figuras de vinculação em alturas de ameaça ou angústia. Neste contexto, a vinculação é considerada uma característica normal e saudável dos seres humanos ao longo da vida, e não um sinal de imaturidade que precisa de ser ultrapassado, como muitas vezes é interpretado pela sociedade.
Segundo Bowlby, a criança vê a figura de vinculação como um “porto seguro” para regressar em tempos de angústia. De forma resumida, foi definido que as relações de vinculação podem seguir quatro padrões:
- Vinculação segura.
- Vinculação insegura:
- Estilo preocupado/ansioso
- Estilo desligado
- Estilo evitante.
Quando a vinculação é segura, a criança confia que a sua figura de vinculação estará disponível e responderá às suas necessidades quando for necessário. Assim, uma criança segura cresce com facilidade em se conectar às outras pessoas porque tem uma visão dos outros como responsivos e de confiança, e de si mesma como merecedora de atenção e amor. Indivíduos com uma vinculação segura sentem-se confortáveis quer quando estão em conexão, quer quando estão consigo próprios.
Indivíduos com um estilo de vinculação inseguro preocupado/ansioso apresentam um modelo negativo de si próprios (perceção de serem vulneráveis ou inadequados), mas positivo dos outros, manifestando uma elevada ansiedade e uma grande procura de proximidade. Em criança tiveram as suas necessidades respondidas de modo irregular e inconsistente. Na ausência de outras relações significativas estáveis, constantes e acolhedoras, estes indivíduos podem-se tornar “people pleasers” (pessoas que tentam sempre agradar os outros) para garantirem serem aceites e amados.
Por outro lado, indivíduos com vinculação insegura desligada possuem um modelo positivo de si e negativo dos outros, minimizando as suas perceções subjetivas de angústia ou de necessidades sociais, rejeitando a necessidade ou o desejo de relacionamentos próximos. Afinal de contas, foram crianças negligenciadas, tendo tido, na maioria das vezes, as suas necessidades e sinais de desconforto ou de desejo de contacto ignoradas ou rejeitadas. Estes indivíduos podem tornar-se solitários, não procurando contacto com outras pessoas, uma vez que não acreditam ter influência nos outros e muito menos que serão compreendidos. Desta forma, na regulação emocional e no comportamento interpessoal manifestam um baixo nível de ansiedade, mas um elevado evitamento de proximidade, decorrente das expectativas negativas que têm dos outros. Apresentam um elevado sentido de mérito pessoal, negando o valor das relações íntimas e exacerbando o desejo pela autonomia e independência.
Por fim, indivíduos com estilo de vinculação insegura evitante mostram modelos negativos de si e dos outros. Em criança foram, na maioria das vezes, negligenciados e quando e quando as necessidades eram atendidas, eram de forma violenta. Estes indivíduos cresceram com elevado receio dos seus pais e do meio, vendo o mundo e os outros como uma fonte de perigo e ameaça. Reconhecem-se como não merecedores do amor dos outros, manifestam uma elevada ansiedade e evitamento, mas possuem um desejo consciente de contacto social inibido por medos associados às suas consequências. Assim, na regulação emocional e no comportamento interpessoal, são indivíduos que apresentam uma elevada dependência dos outros, contudo, devido às expectativas negativas que têm, evitam a intimidade para impedirem o sofrimento de um eventual abandono ou rejeição.
Assim sendo, uma das grandes conceções erradas nas relações amorosas é que toda a gente tem a mesma capacidade para a intimidade. E aqui entra a teoria da vinculação como um fator explicativo. É tentador esquecer que, de facto, as pessoas têm capacidades muito diferentes para a intimidade. E quando a necessidade de proximidade de uma pessoa é recebida pela necessidade de independência e distanciamento, segue-se um conflito interno e sofrimento. Ao estarem conscientes deste facto, podem percorrer melhor o vosso caminho no mundo dos namoros para descobrirem alguém com necessidades de intimidade semelhantes às vossas ou alcançarem uma compreensão inteiramente nova sobre as vossas diferentes necessidades numa relação existente e trabalhar individualmente ou conjunto para se formar uma vinculação segura.
















