Ler é como ver por dentro, começou por dizer Blimunda. Todos os livros têm uma vontade. Uma vontade, como pode isso ser se os livros não pensam, retorquiu Baltasar. Os livros são o pensamento de quem os escreveu. E a vontade está nas palavras, quis saber Baltasar. A vontade está no que querem dizer. E não é a mesma coisa, claro que não, é como dizer tenho sede e não querer beber. Então as palavras são a sede e a vontade é a água. Sim, a água vem do fundo e a vontade vem de dentro. Há quem lhe chame mensagem e chame interpretar a ver por dentro. E para que serve a mensagem, perguntou agora Baltasar, de novo sem ponto de interrogação, que na fala não se lia e ele escrever não sabia. A mensagem serve para a construção de ideias. Baltasar levantou os olhos para Blimunda, que nem sempre é preciso falar para fazer perguntas, e ela abriu a janela e o ar fresco entrou. Sim, as ideias também se constroem, não há muita diferença entre a construção de ideias e a construção da Passarola ou do Convento. Mas uma pedra pesa mais do que uma ideia e debaixo dela ficou Francisco Marques, por causa de uma ideia não teria ele morrido, e Blimunda respondeu-lhe, sem ser preciso usar o travessão para dizer que ia falar, Estás enganado, por causa das ideias também morrem os homens, uns por defenderem as suas e outros por não terem como se defender das que suas não são, e acontece ficarem assim esmagados debaixo delas, que uns prometem aquilo que os outros têm de cumprir, olha o rei. Sempre foi assim e sempre assim será, disse Bartolomeu Lourenço, às vezes de Gusmão, que as fronteiras entre História e ficção são como um rio a entrar no mar, não se sabe onde acaba um para o outro começar. Ou como a medicina e a arte, se entre elas há diferença, que a música me curou sem saber de que doença, disse Blimunda. Ou como nós, disse Baltasar a Blimunda, onde acaba a noite para começar o dia, onde acaba o mundo para começar o céu, se és metade de mim e eu inteiro sou teu.
A História e a ficção, a realidade e o sonho, o memorial e o romance, a escrita e a oralidade, a cultura erudita e a cultura popular, o narrador e as personagens e o narrador como personagem, o humano e o divino e o humano como divino, «que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer», o prosaico e o sobrenatural, a condição humana e as condições desumanas, a lei do amor e o amor legislado, e a ironia, sempre a ironia, são as traves-mestras de uma obra extraordinária que transforma os grandes em pequenos e os pequenos engrandece, e subtrai ao anonimato aqueles a quem, afinal, D. João V deve o nome, os trabalhadores do Convento de Mafra: «já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados».
Desprendeu-se o Memorial do Convento de José Saramago, mas não subiu para as estrelas, se ao mundo e a nós pertencia.
















