ARTIGO DE OPINIÃO: Um mar comunitário por navegar

11/07/2022 19:30

Uma das coisas mais surpreendentes e artisticamente gratificantes que fui experienciando desde as minhas paragens por terras da Beira (e já lá vão 13 anos) foi o envolvimento comunitário nas loucuras teatrais que tento levar a cena. Não raras vezes, dou por mim a pensar e a perceber que importante é ter-se acesso ao sonho. De repente, num qualquer momento – seja durante a construção teatral, seja num ensaio técnico de revisão ou num ensaio geral de confirmação, dou por mim a olhar a Patrícia, a Teresa, a Célia, o Tony e tantos outros e percebo a viagem mágica que fazem. Partem de um cais sem amarras, numa embarcação sem leme, mas navegam! E é preciso ter-se coragem para navegar sem cais de partida nem embarcação segura. Mas quando o sonho é estruturado, coerente e exigente em empenho e sobretudo Amor, o dito “não actor” navega – sim – o sonho e, ao navegá-lo, afasta-se do pesadelo que seria não poder navegar. Em palco, eles comungam de uma verdade comum com os atores de profissão, os técnicos e o encenador. Partilham um puzzle, cujas peças vivas são fundamentais para o bom porto das naus que neste contexto comunitário são sempre volumosas. Eu, navegador também, assumo o papel de timoneiro e serei certamente o último a abandonar o convés, seja qual for a tormenta.  Mas o que é um timoneiro sem tripulação ou um veleiro sem velas enfunadas? É importante um continuo investimento na facilitação de acesso comunitário a portas que escancarem a fantasia. Falo de mais e mais e mais projetos em rede com participação comunitária, de mais e mais e mais fundos que apoiem espetáculos – de teatro e outros – com a participação de elementos da comunidade. Falo da mais e mais e mais navegações em alto mar com os tais “não actores” que dão braçadas vigorosas no mar da representação para contar a tal história que é comum a todos e que inunda o público em vagas de generosidade. E do lado de quem cria, é importante também que a participação comunitária seja encarada como um investimento e enriquecimento artísticos, mais do que uma oportunidade de financiamento ou aproveitamento dos requisitos para conseguir mergulhar mais e melhor no saco dos fundos de apoio à Cultura. A Célia, a Patrícia, o Tony, a Teresa e os outros todos credibilizam um enredo através da verdade que representam e a generosidade com que o fazem. Por isso, merecem participar mais e mais e mais. Mesmo quando os Fundos Europeus e outros não estão lá para apoiar o projeto. Porque eles remam até ao fim. E como remam! É mais difícil sem apoios, sim. Mas é definitivamente possível e infinitamente compensador. E rigorosamente verdade.

O meu trabalho nas Beiras começou com eles e contou sempre com eles, com ou sem financiamento. E foi sempre melhor com eles, do que sozinho. Sentir que o meu próprio empenho tem, afinal, o som de mil vagas a rebentar e a força de mil braços a remar rumo e um porto comum de destino. É um sentimento de comunhão perfeita num propósito comum e uma imensa gratidão silenciosa pelo que se vive em palco. Tal como os navegadores, imagino eu, quando contemplam em silêncio o por do sol na linha do horizonte, sobre a imensidão do oceano. Imbatível. E sem preço!

Grato a todos os Tonys, Célias, Patrícias e Teresas que, um dia, navegaram comigo em todas as embarcações que escolhi lançar ao mar.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *