ARTIGO DE OPINIÃO: A arte da sétima arte

20/05/2021 19:30

Falar de arte, falar de cultura, falar de quê, falar o quê, quando aquilo que possa dizer nunca poderá traduzir aquilo que é verdadeiramente sentido ao experienciar a arte. Fica a vontade de partilha que me move ao escrever estas  frases. A partilha do meu sentir, que ao ser lido será outro que não o meu.  Álvaro de Campos afirmava “o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro”, ora o coração é o ritmo da vida, é o que sente e o sentir abrange tudo, incluindo a própria existência. Ouço o coração, que neste momento me leva a pensar na sétima arte

Sétima arte, expressão que talvez tenha sido usada pela primeira vez em 1911 pelo italiano Ricciotto Canudo no seu Manifesto das Sete Artes (publicado apenas em 1923), no qual apresentava um sistema em que dividia as artes  pela sua relação com o espaço – pintura, escultura e arquitetura – e com o tempo – música, dança e poesia. Por ser uma arte do espaço e do tempo, o  cinema seria a grande síntese de todas, a sétima arte, pois parte de uma  imagem projetada numa superfície, como a pintura ou a fotografia, mas envolve o movimento, relacionando-se ao ritmo, ao tempo”. 

O cinema é um portal para o mundo ou uma janela por onde se observa. Esta  janela, que é a arte cinematográfica, possibilitar-me-ia várias reflexões, pois leva a mente humana por inúmeros caminhos. Mas não são essas reflexões  que trago por agora. Penso em “O Ídolo”, uma curta-metragem que estreou na passada quarta-feira, 12 de maio, saída da câmara de telemóvel do realizador e guionista Pedro Varela e cujo argumento é do génio inigualável chamado Fernando Pessoa.  

Pessoa foi um poeta universal, que viveu numa busca constante de olhar o mundo numa forma múltipla. Apesar de ter morrido com apenas 47 anos, deixou em casa uma arca com milhares de textos inéditos, onde se revela não só poeta, mas também dramaturgo, ensaísta, crítico literário, comentador político, tradutor, publicitário, astrólogo e argumentista, pois Pessoa fez também experiências ligadas ao cinema e deixou algumas ideias para filmes.

Em 2011, foi publicado “Fernando Pessoa — Argumentos para Filmes”, livro dos investigadores pessoanos Patrício Ferrari e Cláudia J. Fischer com ideias do poeta, mais ou menos dispersas, para criar histórias de filmes. Um desses esboços de argumento foi “Note for a Thriller, or Film”, concretizado agora em  “O Ídolo”. 

Pensar em Pessoa, faz-me pensar no seu Ricardo Reis e na brevidade da vida. 

“Fomos já não somos. Somos já não fomos”. “Nada se não o instante me conhece, minha mesma lembrança é nada, e sinto que quem eu sou e quem eu fui são sonhos diferentes”. “Breve o dia, breve o ano, breve tudo. Não tarda  nada sermos”.  

E pensar em Reis faz-me pensar em “Sinto que estou a perder as minhas folhas”. Estas palavras são proferidas pelo ator Anthony Hopkins no filme “The  Father”, ou em português “O Pai” (com o qual conseguiu a estatueta dourada  de melhor ator na 93ª edição dos Óscares, em abril deste ano), a primeira longa-metragem do dramaturgo Florian Zeller, que estreou no dia 6 de maio nas salas portuguesas. 

Um filme sobre a efemeridade da vida. Um filme sobre uma enfermidade da vida. Um filme sobre a brevidade de tudo. Um filme que me faz sentir o quão difícil é mantermo-nos sãos. Um filme que me faz pensar que tal como algumas árvores, alguns de nós perdem as suas folhas. “Breve o dia, breve o ano, breve tudo. Não tarda nada sermos”.

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