Há sempre um início. E, se do chão se podem levantar as searas e os homens e os livros, também de um livro, como chão, se pode levantar toda uma obra, como uma árvore. É o que sinto quando (re)leio Levantado do Chão: que, do cimo desta árvore, se vê o alcance das suas raízes entrelaçadas – história e ficção; escrita e oralidade; discurso e metadiscurso; texto e intertexto.
A intertextualidade é, em Saramago, uma raiz tão forte que levanta o texto por onde passa, dando-lhe o relevo das vozes que servem uma estratégia polifónica de construção textual e discursiva, convidando o leitor a participar no apaixonante jogo da sua identificação e interpretação. Aqui entram o intertexto social e cultural, o intertexto linguístico e idiomático (com recurso a provérbios, expressões idiomáticas e níveis de língua) e o intertexto literário, tanto no domínio da literatura tradicional como da literatura de autor.
Debruço-me, ainda que de forma muito breve, sobre o intertexto literário em Levantado do Chão. Não será a vez da literatura tradicional nem das questões genológicas que, aqui e ali, a metalinguagem literária usada pelo narrador desperta; aponto apenas alguns aspetos da dinâmica intertextual que se estabelece entre Levantado do Chão e Memorial do Convento e entre Levantado do Chão e O Menino da Sua Mãe.
Quanto ao diálogo entre Levantado do Chão e Memorial do Convento, vemos que ambas as obras partilham a intenção de desmascarar a suposta superioridade do sangue azul: quer porque, sendo derramado, se mostra afinal vermelho (LC); quer porque, sendo provado, não é melhor nem pior do que o vermelho, palavra de percevejo (MC). Por outro lado, ambas as obras sublinham a forma como o amor verdadeiro é “oficializado”: através da partilha da refeição, simbologia da união entre marido e mulher. A sopa, no caso de Baltasar e Blimunda; o pão e o chouriço, no caso de João Mau-Tempo e Faustina.
Diz o narrador de Levantado do Chão que as «crianças, podendo ser, crescem». Crescendo, nem sempre podem envelhecer. Às vezes, «uma bala perdida»; outras, «muito bem disparada». Em comum entre quem morre e entre quem mata: o retrato da mãe no bolso. Podia ser uma cigarreira ou um lenço. Tanto faz, a morte não mexe nos bolsos daqueles que leva. Este diálogo entre Saramago e Pessoa culmina em «tão jovem, que jovem era», verso-lamento de que o narrador saramaguiano se apropria para levantar de imediato na nossa memória literária O Menino da Sua Mãe.
















