Portugal lidera lista vermelha da OCDE onde preços das casas superam os salários em mais de 45%

28/08/2022 13:50

O atual cenário económico mundial, marcado pela guerra e pela inflação, tem acelerado a evolução dos preços das casas. E também os créditos habitação estão a ficar mais caros com a subida das taxas de juro Euribor. Contudo, os rendimentos familiares há muito que não sobem ao mesmo ritmo que os preços das casas. E este fosso entre os dois está a ficar cada vez maior: em Portugal os preços das casas superaram os salários em 47,1% no primeiro trimestre de 2022, tornando-se assim no país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde esta diferença é maior, aumentando, assim, a taxa de esforço dos agregados familiares.

Em comparação com período homólogo, Portugal passou de 138,4, registado no primeiro trimestre de 2021, para 147,1, no mesmo período de 2022, atingindo o valor máximo registado nos últimos cinco anos.

Nada parou a subida dos preços das casas em Portugal – nem mesmo a pandemia. As casas no nosso país ficaram 70% mais caras nos últimos 12 anos, de acordo com os dados do Eurostat, evidenciando um crescimento mais rápido que a União Europeia, já que a média dos 27 Estados-membros ficou pelos 45% no mesmo período. Acontece que, embora as famílias tenham engordado as poupanças durante a crise sanitária, os seus rendimentos brutos anuais não evoluíram ao mesmo ritmo dos valores das casas.

– A subida dos preços das casas em Portugal deve-se, sobretudo, à falta de oferta de casas para a elevada procura. Estes são alguns motivos que estão por detrás deste desequilíbrio no mercado residencial que alavanca o custo de adquirir habitação no nosso país:

– Redução do desemprego trouxe maior estabilidade financeira às famílias para comprar casa: em junho, a taxa de desemprego no país rondou os 6%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE);

– Maior poupança das famílias: os depósitos das famílias estão em máximos em resposta à guerra e à inflação, tendo atingido no final de final de junho de 2022, 180,4 mil milhões de euros, apontam os dados mais recentes do Banco de Portugal;

– Condições dos créditos habitação (ainda) apetecíveis – embora as prestações da casa estejam a ficar mais caras com a subida da Euribor e haja novos prazos consoante a idade dos titulares;

– Retorno dos estrangeiros acelera compra de casas em território nacional – alguns optam por adquirir casas na praia;

– Custos da construção a subir (materiais, matérias-primas, mão de obra): de acordo com o INE, os custos de construção de casas novas aumentaram 13,5% em maio de 2022, face ao mesmo mês de 2021. Este cenário acaba por fazer subir os preços finais das habitações e também por travar novos projetos.

Em resultado, os preços das casas em Portugal subiram uma média de 9,4% em 2021 face ao ano anterior. E o INE aponta para que no primeiro trimestre de 2022 as casas tenham ficado 12,9% mais caras em relação ao mesmo período de 2021. Este é “o aumento de preços mais expressivo” registado desde o início da série do Índice de Preços da Habitação, ou seja, desde o primeiro trimestre de 2010, apontou o instituto.

Os salários dos portugueses estão a subir ano após ano, mas a um ritmo bem inferior: entre 2014 até à atualidade, os rendimentos médios brutos subiram ano após ano entre 0,5% e 3,6%. E foi precisamente em 2021 que os rendimentos deram o maior salto dos últimos anos, passando de 1.315 euros/mês em 2020 para 1.362 euros/mês em 2021 (+3,6%).

O gabinete de estatística português também diz que a remuneração bruta total mensal média por trabalhador no trimestre terminado em março de 2022 foi de 1.258 euros mensais, ou seja, um valor só 2,19% superior ao registado no mesmo período de 2021.

Observa-se que, de facto, os preços das casas têm subido a um ritmo muito superior aos rendimentos médios das famílias:

– Os preços das casas em 2021 subiram uma média 9,4% contra a subida dos rendimentos médios de 3,6% (ou seja, mais 5,8 pontos percentuais);

– No primeiro trimestre de 2022, as casas ficaram 12,9% mais caras do que no período homólogo. Mas os salários só subiram 2,19%, evidenciando-se uma diferença de quase 10 pontos percentuais.

O cenário económico atual poderá agravar ainda mais o fosso entre os preços das casas e os rendimentos das famílias. Isto porque a inflação – que atingiu os 9,1% em julho – está a alavancar ainda mais os custos da construção (que já estavam a subir durante a pandemia), tornando as casas ainda mais caras. Os próprios promotores imobiliários admitem que já estão a rever em alta os preços das casas à venda por este motivo. E há projetos residenciais a abrandar e outros a parar. Ou seja, estão reunidas as condições para que as casas fiquem ainda mais caras.

Por outro lado, a inflação está a tornar o custo de vida em Portugal mais elevado (quer por via dos custos dos alimentos, quer pelo aumento dos preços dos combustíveis e da energia), encolhendo o rendimento disponível dos agregados. E está ainda a aumentar as taxas de juro dos créditos habitação.

Recorde-se que para fazer baixar a inflação até aos 2%, o Banco Central Europeu subiu as taxas de juro diretoras em 50 pontos base a 21 de julho. E estes aumentos – já anunciados no início do ano – estão a aumentar as taxas Euribor para todos os prazos e, por conseguinte, a subir as prestações da casa em várias dezenas de euros. Neste panorama, muitas famílias optam por adiar o sonho de comprar casa.

Fonte: idealista.pt


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