O universo feminino e a ligação ao luto em destaque na estreia de Sara de Castro no Teatro Viriato

26/02/2020 12:07

Sara de Castro estreia Madalena, no dia 29 de fevereiro, no Teatro Viriato. Inspirado na figura de Maria Madalena e nas diferentes construções do feminino, este espetáculo procura resgatar o direito ao luto, um processo cujas diversas fases permitem atravessar a dor e regressar plenamente ao mundo dos vivos. No Teatro Viriato, a estreia conta com a participação de um coro de vozes de Viseu, que colaboraram no processo criativo.

“Nesta criação, abordamos o tema da morte, tão intimamente ligado à arte justamente como forma de superação, através de um processo colaborativo que tem como material de partida as experiências pessoais de todas as atrizes, que contribuíram para a dramaturgia do espetáculo, e da figura de Maria Madalena”, afirma Sara de castro.

A figura de Maria Madalena tem sido alvo de construções culturais que, ao longo de séculos, a tornaram santa e pecadora, devota e amante, cuidadora e “apóstola”. Estas construções repetem uma narrativa cultural que coloca a mulher num determinado lugar na sociedade ocidental. A Madalena cabe o papel de cuidadora: alimentar, limpar, vestir e chorar os corpos, de iniciar e fechar o ciclo da vida. Foi ela que preparou o corpo morto de Cristo para as cerimónias fúnebres e também é a ela que é dado a conhecer o milagre da Ressurreição.

“Pretendemos, assim, questionar o que é caracteristicamente feminino nas práticas de cuidar o corpo, problematizando as contradições da emancipação e convivência material com a transcendência da carne, contribuindo para expor sistemas de regulação da diferença. Sempre coube à mulher o papel de alimentar, limpar, vestir e chorar o corpo. Cuidadora e carpideira, a mulher é tradicionalmente responsável pela saúde e o bem-estar dos filhos e do marido, ela tem a função de iniciar e fechar o ciclo da vida, cuidando quando nasce, cuidando quando morre”, explica a encenadora.

Com Madalena, Sara de Castro convida o público a mergulhar no universo feminino, num discurso cénico que contará com a cocriação das intérpretes e de todos os envolvidos. A conceção deste espetáculo resulta de um processo de formação que teve o seu primeiro momento com a ação Voz Pública, que decorreu no Teatro Viriato, em 2017. Madalena dá continuidade a esse processo formativo com um grupo comunitário que resultará numa das componentes principais do espetáculo. “Criámos, assim, uma massa coral de muitas vozes que habitam a história de Madalena, que povoam a cena e criam um espaço sonoro, revelando-se todas elas uma miríade de Madalenas”, reforça Sara de Castro.

Este espetáculo conta com coprodução do Teatro Viriato, Centro de Arte de Ovar e Teatro Nacional D. Maria II.


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