António Reis, Coordenador de Pneumologia no Hospital CUF Viseu
No Dia Mundial do Cancro do Pulmão, que hoje se assinala, importa lembrar a importância do diagnóstico precoce daquela que continua a ser uma das principais causas de mortalidade no nosso país. Em grande parte relacionada com o facto de ser diagnosticada em fases muito avançadas. Os programas de deteção precoce são, por isso, fundamentais para identificar o cancro numa fase inicial e aumentar as hipóteses de cura e de sobrevivência, conforme refere António Reis, Coordenador de Pneumologia no Hospital CUF Viseu.
Em entrevista, o médico explica como se deteta a doença numa fase inicial, quais os tratamentos que têm vindo a ser desenvolvidos nos últimos anos e alerta para a importância da cessação tabágica.
1. Que importância tem o diagnóstico precoce no cancro do pulmão?
Cerca de 75% dos doentes com cancro do pulmão apresentam, na altura do diagnóstico, doença já avançada a nível local ou com metástases à distância, em que a probabilidade de cura é mais reduzida. Esta situação prende-se essencialmente com o facto de numa fase inicial do cancro do pulmão os doentes não apresentarem sintomas. Por isso, os programas de deteção precoce são fundamentais para identificar o cancro em estádios iniciais e aumentar as hipóteses de cura e de sobrevivência, de acordo com os dados verificados em vários estudos científicos.
2. Em que consiste o Programa de Deteção Precoce do Cancro do Pulmão da CUF?
Este Programa é indicado para populações de risco, ou seja, entre os 50 e os 75 anos de idade e fumadores de longa duração ou ex-fumadores há menos de 15 anos, com carga tabágica importante (mais de 20 unidades maço/ano: fumar mais de 1 maço por dia durante 20 ou mais anos ou 2 maços por dia durante 10 anos).
O Programa consiste numa Consulta com Pneumologista, que avalia se o doente tem indicação para ser incluído, realizando Tomografia Computadorizada (TC) de tórax de baixa dose – que deverá ser repetida anualmente-, bem como eventuais estudos adicionais de acordo com a indicação clínica. A TC de tórax é realizada no próprio dia, sendo a consulta de comunicação de resultado realizada em 72h.
3. Como está organizada a resposta ao doente com cancro do pulmão no Hospital CUF Viseu?
Na suspeita de cancro do pulmão são prontamente agendados os exames complementares necessários (biópsia, análises, provas de função respiratória, fibroscopia), com apoio da Gestora Oncológica que fornece o apoio administrativo e será o elo de ligação entre o doente e os restantes elementos envolvidos.
Existe uma equipa multidisciplinar formada por Oncologista, Pneumologista e Radiologista, por forma a optimizar a gestão do doente, na abordagem diagnóstica e, posteriormente, no tratamento e seguimento do doente, seja em Hospital de Dia, consulta ou internamento caso seja necessário. Os doentes oncológicos têm à disposição apoio de enfermagem, nutrição e psicologia, especializados em Oncologia, acompanhamento clínico 24 horas, através da Linha de Apoio ao Doente Oncológico, uma linha de enfermagem ou, ainda, através do Atendimento Permanente.
4. Que papel tem a consulta de cessação neste programa? O tabaco continua a ser o maior fator de risco para esta doença?
Cerca de 85% dos casos de cancro do pulmão estão relacionados com o tabaco. O tabagismo está relacionado também com outros cancros, como o cancro da orofaringe, esófago, estômago, bexiga e pâncreas.
A cessação tabágica está associada à diminuição da mortalidade em todas as idades, bem como à redução entre 20 a 90% do risco de cancro do pulmão.
A redução do risco de cancro do pulmão torna-se evidente após 5 anos de cessação. Além disso, o benefício de deixar de fumar também se verifica nos doentes em tratamento do cancro de pulmão, pois a continuação dos hábitos tabágicos nos doentes com cancro do pulmão em fase inicial está associada a maior mortalidade, recidiva do tumor e desenvolvimento de outros tumores.
Caso seja fumador, ao iniciar o programa de deteção precoce de cancro do pulmão, deve ser definido um plano de cessação tabágica personalizado e adaptado às circunstâncias e preferências do doente, que pode ser realizado numa consulta dedicada: Consulta de Cessação Tabágica, que engloba apoio médico, de enfermagem, psicológico e nutricional.
5. Que tipos de tratamento existem?
A cirurgia é o que oferece a maior sobrevivência a longo prazo e cura no tratamento do cancro do pulmão, mas só está indicada nos estadios iniciais, realçando a importância da deteção precoce.
Nos doentes em estádios iniciais mas que não são candidatos a cirurgia, podem fazer Radioterapia.
Nos estadios mais avançados está indicada quimioterapia e/ou radioterapia. O tratamento destes doentes têm a finalidade de prolongar a sobrevivência e preservar a qualidade de vida, minimizando os efeitos adversos do tratamento.
Mais recentemente, em função do desenvolvimento do estudo molecular do cancro do pulmão com identificação de algumas mutações específicas, surgiram e estão disponíveis terapêuticas de quimioterapia mais personalizada, com melhor resposta e menos efeitos adversos que a quimioterapia convencional.
Está ainda disponível o tratamento com imunoterapia, baseado também na presença de marcadores moleculares específicos, que tem mostrado boa eficácia, menos efeitos adversos e maior sobrevivência.
São terapêuticas em constante evolução mas que estão disponíveis para benefício dos doentes e nos permitem encarar o futuro do tratamento da doença com mais esperança.
















