Covid-19 nas artes e cultura. “Conheço colegas que passaram fome. O lado humano foi esquecido e, pior, escondido”

16/08/2020 13:36

O setor das artes e da cultura tem sido um dos mais afetados com a pandemia. Com praticamente todos os espetáculos cancelados para 2020, o Teatro Hábitos tem vivido tempos difíceis, como nos explica um dos seus representantes, Ricardo Loio.

O Teatro Hábitos, fundado em 2012, na localidade de Carvalhal Redondo em Nelas, é um projeto comunitário que se dedica ao Teatro Clássico, de Rua e Performativo, mas também à animação e artes de circo.

Com o surgimento da COVID-19, este projeto viu todos os seus espetáculos para 2020 serem cancelados. “No início deste ano já tínhamos os fins de semana de junho, julho e agosto praticamente preenchidos. Infelizmente foram todos anulados. A quebra foi muito grande, causando vários danos para o projeto e artistas”, explica Ricardo Loio.

De todos os elementos do grupo, Ricardo é o único que se dedica a tempo inteiro ao projeto, mas o artista não tem dúvidas em afirmar que a pandemia provocou “um enorme prejuízo a todos”.

Recentemente, com o desconfinamento, alguns municípios têm promovido micro-eventos que cumprem com as regras impostas pela Direção-Geral de Saúde. O Teatro Hábitos tem sido convidado para algumas dessas iniciativas: “Temos participado em eventos no concelho de Nelas, mas também fora dele. Contudo, não existe comparação com o passado, porque marcávamos presença em feiras medievais e festivais de arte. Como havia muito público, os pedidos que nos faziam, obrigavam-nos a recorrer a mais artistas do que aqueles que agora apresentamos nestas pequenas iniciativas”. Para um projeto que englobava cerca de 40 pessoas, “esta realidade tem sido difícil”, esclarece.

Quando confrontado com os apoios do Estado para a cultura, no âmbito da pandemia, Ricardo considera que os governantes só se lembraram “que havia pessoas que viviam desta área, passados quatro meses do surgimento do COVID-19”. O artista revela que tem conhecimento de colegas seus que passaram fome: “Acho lamentável tal coisa ter acontecido, num país que esbanjou dinheiro a salvar outras coisas. O lado humano foi esquecido e, pior, escondido”.

O Governo Português lançou, em julho, três linhas de apoio social extraordinário a trabalhadores das artes, a entidades artísticas e à adaptação de espaços culturais. Para Ricardo Loio, estes apoios “não vão chegar a todos e, possivelmente, os artistas que andaram a passar fome vão continuar na mesma situação”.

O representante do Teatro Hábitos afirma que é necessária a realização de eventos, “respeitando todas as normas de segurança”, para que assim consigam voltar a trabalhar e a obter rendimentos, “porque há projetos e pessoas que só conseguem chegar aos apoios sendo contratados”, finaliza.

«Habitua-te» sai às ruas de Carvalhal Redondo com espetáculos itinerantes

Uma das principais atividades desta associação é o Festival Habitua-te. Em 2020, a iniciativa volta às ruas de Carvalhal Redondo, no último fim-de-semana de agosto, “mas não terá a envergadura dos anos anteriores”.

“Foi projetado e está a ser preparado para cumprir todas as normas de segurança. Vamos marcar, simbolicamente, o evento com espetáculos e performances itinerantes. Iremos percorrer a aldeia ao encontro do público, que nos poderá ver das janelas e portas das suas casas”, adianta Ricardo Loio.

O Habitua-te terá, assim, como principal objetivo chegar às pessoas da freguesia.

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