ARTIGO DE OPINIÃO: Vítor Manuel Aguiar e Silva (1939 -2022) – in memoriam.

02/11/2022 18:30

Soube da sua morte no dia 12 de setembro e não consegui conter duas lágrimas. Uma lágrima de tristeza e de saudade. Uma lágrima de gratidão. A vida leva todos de quem gostamos. Leva-os para longe, para o Fado, mas deixa-nos ficar com eles enquanto os recordarmos. Enquanto tivermos memória. 

Vítor Manuel Aguiar e Silva era natural de Penalva do Castelo. Em 2007, tive a honra de participar numa homenagem idealizada pelo amigo comum o Dr. Fernando Paulo Batista, com o apoio do Governo Civil de Viseu e da Câmara Municipal da sua terra, que se plasmou na publicação de um livro – Vítor Aguiar e Silva: a poética cintilação da palavra, da sabedoria e do exemplo.

A ternura com que pronuncio o seu nome continua a trazer de volta todo o seu inigualável contributo para o meu desenvolvimento como leitora e como professora desta nossa literatura. É com muito orgulho que continuo a referir o seu nome nas minhas aulas ou nas formações que vou dinamizando. Segui sempre, com enlevo e respeito, tudo o que publicou. Os seus livros ocupam um lugar privilegiado entre os mais da minha biblioteca. 

Confesso que me inscrevi, muitas vezes, em congressos só para o ouvir falar. Um deles, realizado na Universidade Católica de Viseu, a propósito de Senhora das Tempestades (1998), de Manuel Alegre, livro de poemas que prefaciou, contribuiu para a escolha deste escritor para uma das minhas dissertações académicas Exílios no universo poético de Manuel Alegre (2001). Leu o meu livro Vidas Singulares (2018) e aceitou publicar uma das suas notas de leitura na contracapa. Ainda mais unidos para a vida.

É o meu Mestre, porque continuo a vê-lo como o Professor que cativava a atenção dos alunos pela sua vastíssima erudição, pelo enlevo, pelo amor que expressava no seu olhar, na sua voz, nos seus gestos largos. Foi pelo fascínio das suas palavras que tomei consciência da profundidade e da riqueza dos labirintos dos textos literários. Consigo, aprendi a ler com os olhos perscrutadores da inteligência e da alma os textos de Camões.

Em 1984, o Anfiteatro IV, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, enchia-se com alunos finalistas dos cursos de línguas e literaturas e outros que escolhiam Teoria da Literatura como opção, nomeadamente, os de Filosofia. Nas suas aulas, ouvia-se um silêncio sagrado. Seguíamos atentamente as lições que preparava “cuidada e amorosamente”, como me diz numa das suas cartas de carinho. Chegava com vários livros que colocava sobre a mesa e recomeçava na mesma linha onde nos tinha deixada na semana anterior. Dizia de cor, com o coração, as palavras que iluminavam as nossas tardes de Coimbra, a cidade mítica. Nunca faltei às suas aulas. Faltava a muitas. Tentava escrever tudo o que dizia nos meus cadernos de capas negras, mas perdia-me nas linhas que as suas reflexões provocavam! Nunca me esqueci da leitura que nos propôs, nesse mesmo ano, 1984, de Georges Orwell.

A Teoria da Literatura, da Almedina, foi um dos poucos livros que comprei com a minha parca mesada de bolseira. Há indubitavelmente um antes e um depois desta obra no âmbito dos estudos literários em Portugal e no mundo. O sistema modelizante primário, a nossa Língua, no qual se institui o sistema modelizante secundário, a Literatura Portuguesa e de Expressão Portuguesa, muito lhe devem pela contribuição ímpar da sua profunda e reconhecida investigação.

Obrigada, Professor, mais uma vez! Obrigada, também pelas suas palavras quando o informei que agora sou docente da velha escola, Alves Martins, onde foi um dos seus mais brilhantes alunos: “Agradeço as suas palavras amigas e generosas. Neste declinar da vida, é reconfortante receber a gratidão de antigos alunos como a Ana. Gostei muito de saber que está a ensinar na «nossa escola», que relembro com tanta saudade…”. 

Pode crer, Professor, que todos o evocámos com admiração e afeto quando ganhou o “Prémio Camões”, em 2020, pelo reconhecimento da sua obra ensaística e o seu destacado contributo para as questões da língua e do cânone das literaturas de expressão portuguesa.  Pode crer, Professor, que aquelas estantes e armários da biblioteca da nossa Escola ainda o recordam e eternizam. 

Foram muitos os galardões que recebeu ao longo da sua vida, mas o maior deles todos é o que dele ficou e ficará em cada um de nós que fomos seus alunos. Os grandes Professores ficam num pedestal e lá permanecem. 

Parafraseando o filósofo francês, Jacques Derrida, pela mão do meu Mestre, o que fica da Escola, o que verdadeiramente conta é o que fica e perdura nos olhos e aos olhos dos seus alunos. 

Até sempre, querido Professor!

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