
Sendo a degustação gastronómica um sinónimo de saciar o palato com uma determinada iguaria, por vezes surge a dúvida sobre o que beber para complementar esse momento sensorial. Enologicamente falando qualidade não falta e por vezes o difícil é escolher a bebida adequada, neste caso específico, falando apenas de vinhos.
Existe um conceito, ou até ideia pré-concebida, de que os vinhos tintos são para as carnes e os vinhos brancos são para acompanhar peixes. Coitados dos rosés, que ficam de fora desta equação. Mas para quem tem algumas noções vitivinícolas, não me referindo a experts, como pessoas formadas em enologia, com certeza que já perceberam e leram as indicações de castas, graduação e qual o prato ideal para acompanhar o vinho e verificaram que há tintos específicos para pratos de bacalhau, por exemplo, e brancos para acompanhar carnes.
Também há a variante entre os vinhos verdes e os vinhos maduros, que se juntam ao leque da escolha na hora de selecionar o vinho perfeito para acompanhar o almoço ou jantar, ou simplesmente beber um copo à beira-mar, ou a observar a serra ou simplesmente a socializar.
Para além destes vinhos, ainda há mais: Os vinhos de transição! Ou seja, nem são verdes, nem são maduros. Exemplo disso mesmo são os vinhos de Lafões, o néctar dos Deuses.
Estamos a falar de vinhos que já existiam ainda antes da romanização e que já percorreram o mundo nas naus e caravelas, na época dos descobrimentos, que dadas as suas características era o vinho ideal para tarear os barcos e saciar a tripulação.
Ao longo dos tempos, os vinhos de Lafões tiveram altos e baixos, desde vinhos premiados até ao quase abandono, principalmente com o encerramento da adega cooperativa. Quase abandono porque durante esse período menos áureo alguns resilientes mantiveram de pé a existência deste vinho único e muito lutaram para que o panorama atual seja francamente positivo.
Nestes tempos mais recentes temos assistido a um crescimento em quantidade e qualidade dos vinhos de Lafões. Nesse sentido, a Confraria dos Gastrónomos de Lafões tem tido um papel preponderante em dar a conhecer a Portugal e ao mundo este precioso néctar, com a edição em 2023 do livro “Vinhos de Lafões – Um Terroir único por descobrir”, um verdadeiro compêndio sobre tudo o que há para saber sobre a temática e que não se foca apenas no néctar, contendo informações sobre a região lafonense a nível turístico, como por exemplo a Rota Histórica de Lafões, com os seus ex-libris, e a própria Rota dos Vinhos.
Ao longo das 139 páginas podem ser lidas as investigações efetuadas pela autora dos textos, a enóloga Teresa Colaço do Rosário, e visualizadas as imagens captadas por António Homem Cardoso.
Após o lançamento do livro em Vouzela, em 2023, seguiram-se as apresentações na Casa de Lafões, em Lisboa, em S. Pedro do Sul e mais recentemente no Museu Municipal de Oliveira de Frades, a 18 de outubro, numa cerimónia que teve palestras da vereadora do município anfitrião, Elisa Oliveira, pela enóloga Teresa Colaço do Rosário e pela Grã-Mestre da Confraria visitada, Patrícia Lopes.
Do enriquecido momento das palestras, algumas ilações foram importantes para o setor vitivinícola da região, sendo corroboradas pelos produtores que marcaram presença, de Oliveira de Frades, a Toca da Raposa e de S. Pedro do Sul o Encostas de Mosteirinho, Quinta da Comenda, Quinta do Gato e a Quinta da Moitinha, em representação, que durante as provas realizadas, após as palestras, deram a conhecer os seus néctares brancos, tintos e rosés aos visitantes.
As conclusões são claras, que é preciso ainda fazer muito trabalho que leve a que a restauração local aposte também em ter os vinhos de Lafões nas suas cartas de vinhos, pois na realidade poucos são os restaurantes que têm, e conclui-se que não é pela falta de qualidade dos vinhos, pois os que foram dados a degustar são de enorme qualidade e acompanham bem a carne, o peixe, as sobremesas ou simplesmente para degustar sem acompanhamentos.
Outra das conclusões é que realmente este livro tem o condão de publicitar e dar a conhecer ao mundo os vinhos de Lafões, pois o livro tem tido algum destaque e procura, não só por pessoas que têm raízes familiares em Lafões, mas também por pessoas que têm interesse em conhecer a vitivinicultura nacional.
Sobre o livro é de salientar o destaque que teve nas revistas da especialidade, como a revista “Grandes Escolhas”, e a “Paixão pelo Vinho” e internacionalmente através do livro de autoria da canadiana Natalie Richard “Routes des vins en Espagne et au Portugal”, que tem percorrido o universo francófono, e não só, como a notícia que saiu na Revista Fugas, do jornal O Público, com o destaque de duas páginas aos vinhos de Lafões, curiosamente no próprio dia da apresentação em Oliveira de Frades, que encerrou o ciclo de apresentações em Lafões, mas que tem recebido propostas para que seja dado a conhecer noutros pontos do país.

As Castas
Para se obter a qualidade deste néctar, essa particularidade vem do uso das castas ancestrais de Lafões, como o Arinto, Dona Branca, Esgana-cão, nos vinhos brancos, e nos tintos temos a casta Amaral e o Pilongo/Alvarelhão.
Outras castas autóctones portuguesas usadas pelos produtores, nos vinhos brancos, são as castas Cercial e Rabo-de-ovelha, sendo também complementadas com Bical, Fernão Pires, Encruzado e Malvasia Fina, enquanto nos vinhos tintos as castas Jaen e Tourigo/Touriga Nacional são as mais complementadas, bem como a Tinta Roriz.
Aníbal Santos










