Aquela aldeia da Beira era singular.
Tinha muitas casas solarengas de pedra granítica, com varandas emadeiradas, onde as plantas sorriam para o sol da manhã. As mulheres, de pele branca e macia, acenavam às janelas, enfeitadas com cortinados de renda feitos nos longos serões de inverno.
Havia outras casas, mais pequenas, nas ruas mais estreitas, com balcões de pedra rugosa e escura, cobertos de vasos de sardinheiras, onde, outras mulheres, de pele crestada pelo sol e pelo vento, remendavam roupas ou catavam piolhos à criançada, nas horas de sesta nos dias de estio. As janelas eram postigos onde aranhas teciam cortinados.
No meio da aldeia, no meio do largo, havia uma fonte, onde, à noite, se juntavam as raparigas casadoiras. Ora enchiam, ora despejavam os cântaros e animavam a alma com canções da moda ou bailavam olhares com os rapazes de fora que, ao anoitecer, apareciam no povoado.
Numa quelha escondida, havia um forno, usado pelas mulheres do povo. As crianças aí procuravam as mães, aí aqueciam as mãos e amaciavam o estômago com o pão de milho, acabado de cozer, ou com a bola feita com a sardinha, trazida, pela manhã, pela tia Susana de Mioma, ou com a carne do porco, morto com a precisão de homens calhados na arte, no tempo frio.
Numa ponta voltada ao sol, ficava um tanque muito alto para ela, que era muito pequena. Era um tanque de pedra larga e água límpida. Era o lugar sagrado para as mulheres do campo, rudes, penhascos secos pelas geadas, gretados pelo frio, tisnados pelo sol. Mulheres que carregavam filhos e curvas labirínticas no rosto. Tão diferentes e tão iguais. Mulheres inteiras!
Aí lavavam a roupa, que punham a corar ao sol, na lameira em frente, e curavam a alma com os ais aflitos ou as gargalhadas sonoras, enquanto mergulhavam os braços na água fria e batiam com as peças no lavadoiro, depois de as esfregarem com o sabão rosa ou azul.
As mulheres tinham lugares marcados. Nenhuma ocupava o lugar da outra, só com autorização prévia. Os lugares passavam de geração em geração. Era um direito consuetudinário. Palavra cara que não cabia no dicionário destas mulheres iletradas, mas cultas, de uma cultura outra que não era valorizada nem reconhecida pelos homens brutos que, muitas vezes, sob o efeito do álcool ou o hábito de mandar nelas, as ameaçavam de morte nas pedras da noite, quando fugiam de casa para casa das vizinhas a pedir guarida.
Os homens e as mulheres que habitavam as casas de balcões de pedra rugosa e escura eram simples. Comiam o que a terra abençoava com o suor dos seus rostos. A ceifa, fila a fila, para cá e para lá; a apanha das batatas, sempre de cócoras, as mais graúdas para os baldes e cestos e as mais pequenas deixadas para trás para os animais; o segar da erva e o carregá-la às costas, à cabeça ou na velha carroça, para os bichos, alojados nas tardes quentes ou nos dias chuvosos; a sacha do milho, com chapéus de palha na cabeça, entoando canções melancólicas ao calor do verão; a vindima, também fila a fila, videira a videira, parreira a parreira; o arrastar dos cestos até ao carro de bois, atirados os cachos para dentro da dorna, levada sobre as rodas a chiar até ao lagar; o pisar das uvas, pela noite dentro, com calças de homem arregaçadas até acima dos joelhos; a desfolhada, o milho-rei e a volta para receber o beijo conseguido; o erguer do feijão e do milho, na eira, ao sabor do vento mansinho, e a moinha fininha a evolar-se no ar; o apanhar e o ensacar das avelãs e das castanhas para vender ao taberneiro rico da aldeia mais próxima. E tantas, tantas outras tarefas.
Era assim a vida, regulada pelas estações do ano e pelo Seringador, comprado na feira dos vinte ao homem que vendia mezinhas, sementes e artes de enfeitiçar os olhares, penduradas com molas da roupa num cordão esticado.
Uma vida suada, mas amada, apetecida, saboreada até à última pinga da água-pé fraquinha, para as mulheres, ou até à última gota do tinto forte, para os homens de barba rija da Beira. Um tinto com o nome do rio Dão que serpenteava os vales do concelho vizinho, mas tão próximo que se confundiam as extremas. E o Vouga, o outro rio que nascera ali à beira e corria para a ria de Aveiro, acolhia, nas tardes quentes, os corpos musculados dos rapazes, que procuravam, na correnteza fria das águas escuras e profundas, aquietar os peitos e as partes quentes do cio natural da mocidade. Às raparigas estava-lhes vedada a possibilidade de se refrescarem nas águas do rio, não fossem elas morrer com o diabo no corpo, que nem no dia do casamento mostravam completamente despido. “Eu cá nunca beijei o meu João na boca. Agora são umas desavergonhadas”. Eles não!














