ARTIGO DE OPINIÃO: Vejo-me e não sou eu

20/07/2022 19:30

A evidência da vida não está só na realidade imediata, mas também – e talvez sobretudo – naquilo que recordamos; na verdade, as memórias provam a nossa existência e aquilo que relembramos é o reconhecimento do que vivemos. A memória – mais do que o instante fugaz – permite que nos (re)encontremos com a pessoa que somos – ou com a pessoa que fomos – e esse (re)encontro é a forma de nos aparecermos a nós mesmos, é o nosso encontro com a nossa pessoa profunda, é vermo-nos por dentro como se nos olhássemos de fora, como se nunca nos tivéssemos visto.  

A presença do sujeito a si mesmo é, como considera Vergílio Ferreira, «um ver-se essencial», porque representa a tomada de consciência do ser pessoa. Pessoa que não é só corpo, mas também nome, como se lê em Aparição: «Não sei que pacto se estabelece entre a pessoa que somos e o nome que nos deram: o nome, como o corpo, é nós também. Não imagino com outro nome nem o Tomás, nem o Evaristo, nem o Álvaro, nem o Alberto. O Álvaro é o meu pai e o Alberto sou eu. Não sei se era por isso que minha mãe não gostou nunca de que meu pai a chamasse Suse. Mas o meu pai teimava sempre, talvez por isso também: para criar para si isso que era ela, para a moldar nisso ao seu poder – no nome.»

Em 28 de junho de 2017, fui fazer o meu primeiro cartão de cidadão e, como foi detetado um problema na transição do bilhete de identidade para o cartão, foi necessário aceder ao meu assento de nascimento. Identifiquei logo a caligrafia da minha mãe, mas experimentei sincera estranheza quando vi que o meu nome vinha escrito Elizabete e não Elisabete, como tinha sido ensinada a escrever. Não me reconheci, e nada há de mais perturbador do que sermos outro a nós mesmos. Senti que o tal pacto entre a pessoa que somos e o nome que nos deram tinha sido quebrado – ou talvez nunca tivesse sequer existido – e, ao ver o meu nome verdadeiro, senti que eu tinha aparecido a mim mesma, como se tivesse nascido naquele momento e não em 28 de janeiro de 1969.

Este estranhamento de si acontece também em Aparição, quando Alberto, em criança, não reconhece a sua própria imagem refletida no espelho do guarda-fatos e diz, por isso, que está um ladrão no quarto. Vivi uma vez situação idêntica: não sabia do espelho que a minha avó tinha colocado no quarto e, quando para ele olhei sem saber que lá estava, não me reconheci logo; apareci a mim mesma como alguém que, só alguns segundos depois, percebi ser eu. Foi um acontecimento extraordinário, ver-me livre do meu próprio olhar, e só a memória me devolve algo que nunca voltei a experienciar, mas são as aparições que nos escolhem e há coisas que só nos acontecem uma vez na vida.

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