ARTIGO DE OPINIÃO: Uma viagem à epopeia da emigração dos anos 60

11/02/2026 18:15

Conheço o autor desta obra, Acácio Pinto, desde há uns 30 anos, mas sem uma relação próxima, a não ser através dos livros. Há um mês atrás decidimos um encontro a dois, para conversarmos sobre nós e os nossos livros. E agora venho propor-vos a leitura (que se faz de um fôlego), desta história, inspirado em memórias reais, O Emigrante que é mais do que um simples romance que retrata a emigração portuguesa: é uma viagem emocional que atravessa fronteiras, gerações e afetos).

Narrada na primeira pessoa, a obra leva-nos à peregrinação de milhares de portugueses, fugindo da miséria ou da guerra colonial, para se instalarem em Paris e arredores, em bairros de lata miseráveis, onde conviviam com a lama e os bichos, amontoados por vezes em contentores e barracas de chapa e lonas. A obra escrita numa narrativa fluente e acessível a todos, mesmo para leitura escolar num quadro de compreensão da emigração portuguesa para França e outros países europeus há 60 anos atrás.  

Renato, natural da região de Viseu, nos anos 60 parte a salto para França em busca de uma vida melhor (como fez o meu pai, tinha eu uns meros quatro anitos, juntamente com todos os irmãos dele homens), deixando mulher e filhos em Portugal. Entre a dureza da labuta nas obras em Champigny, a vida nos “bidonvilles” e o trabalho numa siderurgia em Le Creusot, conhece a solidão de quem vive repartido entre dois países. Mas não são apenas a distância ou o labor que o marcam: o súbito conhecimento de segredos antigos virá abalar tudo o que significa ser pai, filho, marido e homem.

Numa das suas viagens no Sud-Express, apinhado de emigrantes no final de agosto, cruza-se também com um trabalhador da Figueira da Foz — cidade onde cumprira o serviço militar —, encontro fortuito que acaba, igualmente, por lhe reacender memórias do passado, com consequências, para si, desconhecidas. Com uma escrita intensa e comovente, O Emigrante fala de sacrifício e identidade, dos insondáveis desígnios da vida, bem como da esperança nas gerações vindouras e na sua capacidade para curarem as fraturas abertas por revelações inesperadas.

Embora sendo um romance bem datado, em termos temporais e espaciais, através desta última obra de Acácio Pinto podemos facilmente fazer uma viagem até aos tempos atuais, até às inúmeras migrações com que nos confrontamos, em que só mudam as personagens e as geografias de partida ou de chegada. O Emigrante é uma edição Letras e Conteúdos.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *