Levantei-me cedo, ainda sob a ressaca de um dia no festival Babell, no Porto.
Fui propositadamente para ouvir Olga Tocarczuk, a Nobel polaca, autora do notável Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, numa praça esgotada para o efeito.
Pela primeira vez na vida, estive numa fila enorme para ir a um encontro com um escritor ou escritora. Uma fila diferente das outras. As pessoas, muitas delas muito jovens ainda, traziam ao ombro sacos de pano com livros e, isto é deveras incomum nos tempos que correm, quase nenhuma olhava fixamente o telemóvel, enquanto esperava a sua vez para entrar no espaço dedicado ao encontro, na Praça dos Leões, bem perto da Lello.
Fui ouvindo as conversas dos «leitores» que seguiam à minha frente ou logo atrás. Falavam de livros, de escritores, dos dias que estavam a passar na cidade só para poderem participar nesta festa da leitura, numa cidade transformada numa «cidade-livro». Falavam do sol em vários idiomas e sotaques. Uma experiência em muitas línguas.
Durante o tempo de espera, os «ardinas» foram-nos oferecendo um jornal ilustrativo do festival literário, do seu pioneirismo em Portugal, do seu programa recheado de livros, encontros com escritores, música e exposições.
Antes tínhamos passado pela antiga Cadeia da Relação, agora Centro Português de Fotografia, onde esteve encarcerado Camilo. Percorremos os espaços com a memória de Amor de Perdição, escrito naquele lugar. O motivo principal, desta vez, era visitar a exposição do «fotógrafo dos escritores», o argentino Daniel Mordzinski.
Pela sua mão, pela sua objetiva, fomos encontrando fotografias de alguns dos autoresque fazem parte do nosso património literário nacional e de outros que povoam o nosso universo de leituras de outros países. Lídia Jorge, José Saramago, João de Melo, Maria Teresa Horta, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M., Tavares, ao lado de Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Irene Vallejo, Salman Rushdie, Jorge Luis Borges e outros ocupam as paredes da exposição criativa, sugestiva e ironicamente intitulada «Imagens cativas», fotos de escritores que sempre pugnaram pela liberdade, resistindo, através da palavra, contra todas as formas de opressão ou de censura.
Do encontro com a escritora que apreciamos, não podemos dizer muito. A conversa, conduzida por Marta Bernardes foi feita com tradução automática, do polaco para o português e vice-versa, com todas as limitações que isso implica. O palco, um pouco baixo para a altura das cadeiras onde nos sentámos, não ajudou muito. Lá fomos lendo as legendas no ecrã colocado como fundo.
Olga Tocarczuk foi falando das suas obras, do seu processo criativo, das suas experiências como leitora precoce, filha de um bibliotecário, das suas leituras antes de dormir, da dificuldade em estabelecer uma fronteira entre o que se vive e o que se imagina, da inconsciência e até da compulsão que medeia todo o ato de criação literária, do papel das mulheres na literatura dos ditos «clássicos», como Thomas Mann, e da força criativa e «perigosa» das mulheres escritoras.
Na viagem, fui relendo algumas passagens do livro de Rui Couceiro, A mais bela maldição. Este escritor é o comissário do festival, sob a égide da Lello, com muitos apoios públicos. Creio que não poderia ter escolhido melhor companhia para esta festa. Um livro que nos mostra diferentes amantes da leitura, em diversas partes do mundo, narrado de uma forma simples e sublime.
Agora, ficamos à espera do anunciado Festival Literário Internacional de Viseu que se realizará de 7 a 11 de outubro e que contará com um programa diversificado de iniciativas culturais e artísticas.
Venha ele!
Ana Albuquerque
















